08 de fevereiro de 2010 às 17h40m
O guerreiro da liberdade

Ícone da resistência negra, Mandela modificou a África do Sul e é exemplo para vários líderes internacionais


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Mandela assumiu a presidência do país em 1994 disposto a derrubar barreiras do apartheid e construir uma nova nação

Amanhã, há exatos 16 anos, o mundo assistia à vitória de uma nação na luta contra a discriminação racial e a defesa dos direitos humanos e da democracia. Em 9 de fevereiro de 1994, a África do Sul, elegia o primeiro presidente negro da história daquele país, o líder do movimento anti segregacionista, Nelson Mandela.

Ícone da resistência negra sul-africana, Mandela assumiu a presidência disposto a derrubar barreiras e construir uma nação unida a partir dos escombros da anterior. A África do Sul foi um dos primeiros países a lutar contra o colonialismo e um dos últimos a tornar-se independe.

A política do apartheid ("separação" em africânder) foi adotada, no país, legalmente, em 1948, e representava um sistema legalizado de discriminação que manteve o domínio da minoria branca nos campos político, econômico e social. Separados por meio da imposição de regras racistas, os negros eram obrigados a viver sem nenhum tipo de cidadania.

É neste contexto que surge a figura de Nelson Rolihlahla Mandela, nascido no fundo da pátria negra de Transkei de onde se tornou para o povo africano um guerreiro da liberdade.

Jovem advogado, Mandela uniu-se, em 1942, à Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano (CNA) e se envolveu na resistência passiva contras as leis que mantinham os negros em condição de subserviência permanente.

Após a eleição de 1948 dar vitória aos afrikaners do Partido Nacional, que apoiavam a política de segregação racial, Mandela tornou-se mais ativo no CNA, tomando parte do Congresso do Povo (1955), que divulgou a Carta da Liberdade - documento contendo um programa para a causa anti-partheid.

Prisão

Em agosto de 1962, Mandela foi preso após informes da CIA à polícia sul-africana, sendo sentenciado a cinco anos de prisão por viajar ilegalmente ao exterior e incentivar greves. Em 1964, foi condenado a prisão perpétua por sabotagem e por conspirar para ajudar outros países a invadir a África do Sul.

No decorrer dos 27 anos que esteve detido, Mandela transformou-se no símbolo que representava o clamor mundial pelo fim do apartheid.

O líder africano continuou na prisão até 1990, quando a campanha do CNA e a pressão internacional conseguiram que ele fosse libertado em 11 de fevereiro, aos 72 anos, por ordem do presidente Frederik Willem de Klerk. Os dois dividiram o Prêmio Nobel da Paz em 1993.

Como presidente do CNA de 1991 a 1997 e primeiro presidente negro da África do Sul de 1994 a 1999, Mandela comandou a transição do regime de minoria no comando, o apartheid, ganhando respeito internacional por sua luta em prol da reconciliação interna e externa.

Com a liberdade de volta, Nelson Mandela assumiu a presidência do país em 1994 disposto a derrubar barreiras e construir uma nação unida a partir dos escombros da anterior.

Para o jornalista John Carlin, correspondente na África do Sul entre 1989 e 1995, o renascimento do país não teria sido possível sem a liderança, carisma e personalidade de Nelson Mandela.

"Mandela é o grande sedutor. O político perfeito, que procura seduzir e conquistar mentes e corações, persuadir", descreve Carlin.

Exemplo

Ícone da resistência negra, Nelson Mandela é respeitado por muitos líderes políticos da atualidade. Um deles é o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Assim como o político africano, Obama foi também eleito como o primeiro presidente negro de seu país em 4 de novembro de 2008. Na plataforma de campanha, ele propôs uma mudança nos rumos dos Estados Unidos.

Aliada a uma política externa e econômica eficiente, a campanha de Obama não deixou de lado o fato de ele ser um candidato negro. Em seus discursos, não faltaram palavras de alerta contra o preconceito e em defesa dos negros americanos, que durante séculos viveram segregados por leis.

Devido à sua história pessoal (pai negro, mãe branca e padrasto asiático) é visto por muitos como um unificador, alguém que consegue transpor a barreira racial. Dessa forma, Barack Obama conquistou nos Estados Unidos - um país marcado pela desigualdade social - a maioria dos votos das mulheres, dos negros e dos hispânicos.

Na ocasião da vitória de Obama, Nelson Mandela disse que a escolha dos americanos é um exemplo de que todos podem sonhar com um mundo melhor. "Ninguém, em todo o mundo, deve ter medo de sonhar em mudar o mundo para tornar melhor", disse o herói africano.

Mandela e Obama representam, cada qual em sua época e país, valores universais, que extrapolam qualquer referência à raça e são essenciais para transformação do mundo.


OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Desafios da Juventude Negra

Thais Zimbwe
Coordenadora da Ujima

Num mundo de grandes desigualdades, nem sempre é fácil lidar com a diferença. Ela está em toda parte. Por outro lado, diferentes entidades, organizações civis e intelectuais têm apontado perspectivas e alternativas para o desenvolvimento econômico, político e institucional de nosso País . Há alguns anos, governos, organizações sociais e organismos internacionais, trabalham junto com as populações afrodescendentes e africanas na luta contra o racismo e a favor da inclusão e da promoção da igualdade racial e de oportunidades. E nesse marco de atuação política, a juventude sempre protagonizou uma série de momentos sócio-políticos no País, fortalecendo e valorizando a luta do movimento social e reconhecendo-se como parte dele. A juventude afrodescendente é pelos dados de que se dispõe àquela que mais atenção deveria merecer das políticas públicas. Em contraponto a essa dura realidade, há alguns marcos que apontam para a potencialidade das diversas juventudes organizadas, tais como as redes, movimentos e organizações, além do diálogo com o poder público que tem se avançado nos últimos anos. Esse movimento indica para a possibilidade de construção de um novo papel para as juventudes, que visa de modo participativo e pró-ativo, construir um novo panorama social para a juventude, valorizando as diferenças e superando as desigualdades. As várias organizações da juventude negra apontam para essa expressão de resistência: resistência ao processo de extermínio expresso nas altas taxas de homicídio por arma de fogo desse segmento etário-racial, resistência à expropriação e invasão das terras dos quilombos e comunidades tradicionais por interesses do agronegócio e de grandes empresas, resistência às violências existentes contra as religiões afrodescendentes e, enfim, resistência para o fortalecimento da identidade e da cultura afrodescendente e para a garantia dos direitos e da equidade. Nos últimos anos, os processos organizativos da juventude têm expressado o potencial articulador desse segmento na busca por uma sociedade mais igualitária, justa, promotora de diretos humanos para todos.

 


Fonte: Diario on line
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