31 de março de 2009 às 08h27m
Movimento de 1964: Revolução ou Golpe Militar?

Políticos do País relatam experiências e definem as impressões sobre a época


Há 45 anos o presidente João Goulart foi deposto e o Brasil passou a ser gerido a partir de uma Ditadura Militar. Os detalhes estão presentes na bibliografia no país, mas uma divergência ainda paira entre as testemunhas da época: alguns tratam o Movimento como uma Revolução e outros definem o momento como o Golpe de 64.

Até hoje ainda existem discórdias quanto a época, já que militares têm o período como uma Revolução e todos os torturados e presos políticos que sofreram são unânimes em afirmar: “Foi um golpe dos mais violentos”, como disse o deputado federal Chico Lopes (PCdoB).

A maioria dos livros didáticos de História do Brasil trata o Movimento de 1964 como o Golpe Militar que destronou a democracia do país empossando militares no comando da nação. O enfoque desagrada a militares que vivenciaram a época: “Eles [os livros] tratam assim para encobrir a verdade”, destacou o general de Divisão Reformado do Exército, Francisco Batista Torres de Melo.

O irmão do General, o presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), José Ramos Torres de Melo, que também foi militar na época, também lamentou o fato dos livros tratarem como Golpe aquilo, que segundo ele, representou um contragolpe. “A estrutura militar estava sendo quebrada pelo presidente e ministros e felizmente tivemos um movimento que pôs fim na desordem”, ressaltou.

Chico Lopes também foi testemunha ocular do Movimento de 1964 e por isso se contrapôs ao que disseram os irmãos Torres de Melo. Chico foi preso político na época e, segundo o comunista, sofreu os horrores da Ditadura. “Foi um golpe dos mais violentos, os livros estão certos. Se fosse uma revolução os dois lados teriam tido armas”, protestou Chico.

Na época em que foi preso, em 1973 na Casa dos Horrores, o deputado Chico Lopes, era membro do PCdoB e funcionários da Prefeitura de Fortaleza. No ano passado, o parlamentar foi um dos anistiados políticos – que sofreram tortura militar em dependências administrativas do Ceará – indenizado pelo Governo do Estado.
Para o deputado federal Mauro Benevides (PMDB) – que fez parte do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), hoje PMDB – o Movimento de 1964 significou o “cerceamento da liberdade e direitos”, todavia, o parlamentar fez questão de admitir que, quando instalado no país, o movimento tinha caráter “restaurador”, o que não pode ser levado à frente por conta da instauração do Ato Institucional número cinco (AI-5). “O AI-5, porém, foi algo que impediu [a volta à normalidade] e o plano castelista de redemocratização em menor tempo por ele prometido vezes seguidas”, disse Benevides.

» Reflexos no Brasil de agora. Decorridos 24 anos do fim da Ditadura Militar no país, questiona-se em que influiu as decisões tomadas pelos militares que chefiaram por 45 anos a nação. Afora as torturas e prisões mencionas em livros e descritos por vítimas da época, novas estradas e equipamentos tecnológicos chegaram ao país durante o período.

O vereador João Alfredo (PSol) lembrou que, apesar de ter representado uma “época sangrenta”, a Ditadura Militar trouxe crescimento econômico para o Brasil. “Não significa que houve crescimento social”, destacou o socialista.

João Alfredo lembrou ainda que, apesar da liquidez de mercado que havia na época, o endividamento interno aumentou, “e a gente até hoje paga por isso”, destacou o parlamentar.
O general Francisco Batista Torres de Melo, em contrapartida, garantiu que o país mudou e passou a ser uma nação conhecida depois desse período: “O Brasil deve aos civis e aos militares daquela época a transformação do país num lugar maravilhoso”, referindo-se ao que era o país quando estava sendo comandado pelos militares. Hoje, no entanto, segundo o General, “existem muitos escândalos e políticos corruptos”.

Para Chico Lopes, a Ditadura Militar não contribuiu para que o Brasil se tornasse mais independente, “foi apenas um período de escuridão na história do nosso país”, desabafou o comunista. (Colaborou Deborah Milhome).

» Para relembrar a História. O Movimento de 1964 teve início quando uma crise política, que surgiu com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, toma conta do país. Nesse momento assumiu a nação o vice de Jânio, João Goulart. O clima de crise política e as tensões sociais somente aumentavam e no dia 31 de março de 1964, tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas.

Com receio de dar início a uma guerra civil, Jango deixa o país e os militares tomam o poder, dando início ao período da Ditadura Militar, época que vai de 1964 a 1985.

Durante esse período, predominava a censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. Apesar disso, reformas de estradas de ferro, rodovias e outras obras passaram a ser desenvolvidas no Brasil.

Opiniões de populares

» Ernani Araripe, 73 anos, aposentado. “Na época da Ditadura havia muita perseguição, ninguém passeava ou se sentava nas calçadas para conversar. Na época eu trabalhava na 10ª Região e os meus colegas de trabalho não podiam ouvir falar em revolução a que saiam todos correndo”.

» José Eduardo, 72 anos, aposentado. “Durante a Ditadura qualquer grupo de cinco pessoas era considerado multidão e, portanto, não podiam ficar todos juntos. Caso acontecesse, os militares logo apareciam para afastar um dos outros. Existia muita ordem, mas as pessoas não respeitavam quem estava à frente. Elas temiam, o que é muito diferente”.

» José Pedro Rodrigues, 72 anos, aposentado. “É bem verdade que não tínhamos a liberdade de conversar na rua com os amigos, pois já era considerada conspiração. Lembro que falavam bastante que os militares viam algumas pessoas juntas atiravam e depois perguntavam o que estava acontecendo e em que eles acabaram de atirar”.

» Oscar Moreira, 68 anos, aposentado. “Na ditadura as coisas eram bem melhor do que hoje. Era difícil, pois as pessoas viviam constantemente com medo, mas como eu trabalhava em um Banco vi a Ditadura pelo lado positivo. Na época havia um crescimento melhor, pelo menos era o que percebíamos. A melhor coisa da Ditadura era que não havia assaltos, era mais seguro”.



Fonte: Dahiana Araújo

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