03 de março de 2009 às 14h04m
O recado de Obama

"O mundo depende de nós para ter uma economia forte, assim como nossa economia depende da força do mundo" "Eu sei como é impopular ajudar bancos agora. Mas não se trata de ajudar bancos, mas de ajudar pessoas" "Rejeito a ideia de que nossos problemas se resolverão por si sós, que o governo não deve intervir"

Em seu primeiro discurso no Congresso, o presidente americano Barack Obama adotou a famosa doutrina do "big stick", criada por Theodore Roosevelt (1858-1919), para definir a política externa dos Estados Unidos. A frase "fale com suavidade, mas tenha na mão um grande porrete" entrou para a história e fortaleceu o comércio e a indústria do país, sempre protegidos a todo custo.

Na noite da terça-feira 24, diante das resistências republicanas ao seu plano de estímulo, da impopularidade de seu programa para salvar bancos quebrados e de um déficit fiscal de US$ 1,75 trilhão em 2009, Obama pediu apoio aos parlamentares, otimismo ao povo, prometeu desde a retomada econômica até a cura do câncer e, sobretudo, enviou um recado ao planeta: "O mundo depende de nós para ter uma economia forte, assim como nossa economia depende da força do mundo."

A frase dita no fim do discurso, antes de o presidente enumerar seus heróis da resistência (leia quadro abaixo), revela como Obama pretende tocar seu plano de reconstrução da América ou, como ele espera, fazer os Estados Unidos ressurgirem da crise mais fortes do que nunca. A suavidade de sua fala aparece quando diz que está trabalhando com os países do G-20 para "restaurar a confiança do sistema financeiro e evitar a possibilidade de escalada do protecionismo".

Já o porrete veio logo depois, quando o presidente disse esperar que ocorra uma "impulsão da demanda pelas mercadorias americanas nos mercados mundiais". Ele nem precisou ser tão claro, mas um dos produtos que Obama precisa continuar exportando são os títulos da dívida pública. Caso contrário, como mencionou, a capacidade dos Estados Unidos de salvarem a economia do planeta é nula, pois seus desafios domésticos são imensos.

Obama enumerou os três principais: educação, saúde e energia. Prometeu resolver todos se tiver otimismo, boa vontade, apoio e outras palavras doces. Em relação aos dois primeiros, a tática foi demonstrar para a população que tem consciência de seus problemas agravados pelo desemprego. Em termos de popularidade, tem funcionado.

Obama chegou ao Congresso calçado por uma pesquisa que lhe concede 67% de aprovação - embora tenha caído nove pontos desde a posse. Mas logo depois do discurso conseguiu elevar sua popularidade entre a bancada dos republicanos, os mais resistentes aos seus projetos e à ideia de um governo bipartidário. Os republicanos acusam os democratas de elaborarem planos sem detalhes, insuficientes para abrandar a crise, e de ampliarem o déficit público de "forma irresponsável". Em seu discurso, Obama mencionou até o website criado pelo governo para explicar "cada centavo" gasto.

Na questão energética, Obama quer reduzir a vulnerabilidade e a dependência dos Estados Unidos do petróleo. Pretende dobrar a oferta de energia renovável nos próximos três anos. "Achei o plano muito bom, mas ainda estou fazendo as contas sobre o que o presidente vai fazer para viabilizar esta pauta enorme", atacou o senador republicano John McCain, em entrevista na tevê, logo depois do discurso. O duelo com os republicanos continuou no dia seguinte, quando Obama anunciou aumento dos impostos para os mais ricos como forma de pagar pela saúde dos mais pobres. Em seu orçamento de 2009, o presidente ainda incluiu a meta ambiciosa de encerrar o governo com um déficit de US$ 533 bilhões, em 2013.

As críticas dos opositores recaem ainda sobre desperdício com licitações e despesas com a guerra do Iraque. Mas a maior divergência ainda se refere à possível nacionalização do sistema bancário. Minutos antes do discurso, o presidente do Fed, Ben Bernanke, tentou afastar o fantasma de o Estado assumir bancos, como o Citigroup e o Bank of America. "Não precisamos ter propriedade dos bancos para trabalhar com eles", disse. Bernanke chegou a marcar data para a recuperação econômica, se as medidas do governo forem adotadas na íntegra: 2010.

Como disse Obama, o mundo está assistindo ao que farão os Estados Unidos. Na reunião do G-20, em Londres, no dia 2 de abril, Obama encontrará, certamente, mais cobranças do que o mencionado trabalho de equipe. No domingo 22, líderes europeus pediram um reforço de US$ 500 bilhões no FMI - onde o principal provedor sempre foram os EUA. A Alemanha é um dos países que fazem mais pressão com receio de ser obrigada a socorrer os vizinhos do Leste Europeu para evitar o colapso do euro.

O Brasil trabalha para impedir, também como disse Obama, a "escalada do protecionismo". Na primeira reunião com a secretária de Estado, Hillary Clinton, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reclamou do chamado "buy american", o artigo do plano de Obama que protege os produtos americanos. Ou seja, nenhum país está disposto a participar do encontro somente para falar com suavidade.


Fonte: Revista Istoé

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