Houve um tempo em que o bad boy tinha o seu charme. Além das maravilhas que faziam com a bola nos pés, craques como Romário, Edmundo e Djalminha se notabilizaram pelas confusões e declarações polêmicas fora de campo. Parece que este tempo passou, pelo menos na prioridade de contratações dos clubes e na lista de convocados da seleção brasileira. Os jogadores mais valorizados, hoje, devem cumprir regras, além, é claro, de resolver os jogos em campo.
Renato: “Tem santo demais no futebol”
A esta altura do ano, por exemplo, Edmundo costumava receber vários convites do Brasil e do exterior. Agora, parece viver no ocaso depois de uma conturbada temporada no Fluminense, em que desafiou o técnico Ricardo Gomes por tê-lo barrado. Romário, que saiu do mesmo clube pela porta dos fundos, depois de uma briga com Alexandre Gama, só encontrou abrigo no Vasco, clube que lhe deve milhões de reais e cujo presidente tem com ele uma dívida de gratidão. Esta semana, o presidente do São Paulo, Marcelo Portugal, descartou a contratação de Djalminha, alegando que ele “não está no perfil do clube”. O benefício dentro de campo já não compensa a dor de cabeça fora dele.
— Depois da globalização, o individualismo perdeu o valor em todos os setores. Hoje, não basta o atleta desequilibrar, até porque ele não vai fazer isso o campeonato todo. Tem que ser profissional — diz o presidente do Fluminense, Roberto Horcades, que assumiu o clube com a idéia de acabar com o núcleo de bad boys. — Não dá nem para comparar o elenco de hoje com o do ano passado em termos de profissionalismo.
O Flamengo também fez um exame de consciência há um ano, quando o atacante Edílson atrasou em dez dias sua reapresentação das férias sem dar satisfação ao clube. Depois de muito bate-boca com o então diretor Júnior, o bad boy baiano foi mandado embora da Gávea. Não houve arrependimento por lá.
— Se bad boy significa indisciplinado, desagregador, este jogador está sem mercado. No Flamengo, o sujeito pode ser craque, mas se tiver estas características está fora — afirma o gerente de futebol rubro-negro, Anderson Barros.
Esta tendência — recente e não se sabe se definitiva — dos dirigentes está sendo seguida pelos atletas, até pela exigência do mercado de trabalho. Uma geração de bad boys está envelhecendo e não vem outra a reboque. Os maiores fios desencapados do futebol brasileiro têm mais de 30 anos. Um deles, já aposentado, tem uma visão diferente da maioria dos dirigentes. O técnico Renato Gaúcho se diz saturado desta hegemonia dos bons moços:
— Tem santo demais no futebol. Está faltando “bandido” no bom sentido, aquele jogador de personalidade que resolvia em campo. O Edílson foi punido porque falou pelo grupo, estava reivindicando seus 30 dias de férias. Eu faria o mesmo.
Mesmo sem se considerar um bad boy, Renato acha que o excesso de politicamente corretos está afetando até a seleção brasileira:
— Por isso, o Parreira tem tanta dificuldade para arrumar um capitão. O Cafu não abre a boca.
Zagallo, é claro, discorda. O coordenador da seleção diz que seus jogadores têm personalidade mas ressalta que só veste a amarelinha quem for 100% profissional. Num time em que os maiores craques são os bons moços Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká, fica fácil acreditar.
— Claro que não adianta só ser bonzinho. Mas o técnico deve ter elasticidade para saber o limite em que o craque se torna inconveniente para o time. A partir daí, ele está fora — conclui Zagallo.
Fonte: Fellipe Awi