03 de agosto de 2020 às 11h32m
Em equilíbrio, sistema imune é arma contra Covid-19 e outras doenças

O sistema imunológico ativa uma rede complexa de células, moléculas e proteínas assim que o corpo humano percebe a chegada de uma ameaça, que pode ser um vírus, uma bactéria ou um tumor, por exemplo.

Mas esse mesmo sistema pode danificar o corpo quando exagera na liberação de substância tóxicas para combater o invasor. Estudos mais recentes sobre os mecanismos da Covid-19 mostram que a chamada tempestade de citocinas, uma liberação de substâncias inflamatórias pelo sistema imunológico, tem um papel chave na piora da situação dos pacientes da doença.

A defesa do corpo começa com a resposta imune, iniciada quando as células identificam o material genético do patógeno recém chegado. Todas as pessoas possuem esse tipo de resposta imunológica, que é composta por uma série de barreiras físicas e químicas para barrar ameaças.

A imunidade inata não é específica, ela responde a todos os patógenos de uma maneira semelhante. “Todas as células do corpo conseguem responder à invasão em algum nível”, explica Daniel Santos Mansur, imunologista da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A tempestade de citocinas é ativada nessa primeira fase da defesa. No caso dos vírus, que dependem da estrutura das células para seguir com a replicação, as substâncias inflamatórias podem destruir as células já infectadas, numa tentativa de impedir que a infecção se espalhe. Essas substâncias também funcionam como mensageiros, avisando o resto do corpo de que algo está errado.

“O sistema imune é redundante, ele tem vários planos para agir e trabalha com equipes onde vários componentes vão se ajudar. Esses agentes ativados tentam cercar os vírus de várias formas”, diz a virologista Jordana Alves Coelho dos Reis, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O aviso de que há um invasor no corpo -e de quem é esse invasor- ativa os linfócitos. Assim, tem início a resposta imune adaptativa. Os agentes que comunicam a chegada do patógeno também informam as características do invasor, o que prepara os linfócitos para darem uma resposta específica, explica Reis.

Os linfócitos B são os responsáveis pela produção dos anticorpos, proteínas que carregam uma caixa de ferramentas para desativar o vírus. No caso do novo coronavírus, que possui um envoltório com espinhos usado para se ligar às células, alguns anticorpos podem se conectar a essa estrutura para impedir que o vírus faça novas infecções.

“Na resposta adaptativa, cada patógeno vai despertar uma reação específica contra o agressor. Mesmo assim, essa resposta pode não funcionar, produzindo anticorpos que não são neutralizantes”, diz Daniel Wagner de Castro, médico infectologista da Rede D’Or São Luiz.

Estudos com pacientes recuperados de Covid-19 têm indicado que a quantidade de anticorpos neutralizantes no corpo pode cair muito rapidamente. Mas outras pesquisas mostram que um outro tipo de célula de defesa, os linfócitos T, parecem ter o potencial de conceder proteção contra novas infecções pelo Sars-cov-2.

Os linfócitos T, também gerados pelos glóbulos brancos, estão subdivididos em diversos tipos, entre eles o CD4 e o CD8. O CD8, ou citotóxico, elimina os vírus ao destruir as células infectadas. O CD4, ou auxiliar, estimula outras moléculas a agirem ou produzirem substâncias de defesa.

Os linfócitos B precisam de um empurrão do CD4 para poder produzir anticorpos mais eficientes, as imunoglobulinas G (IgG) por exemplo.
A resposta adaptativa tem ainda a capacidade de memorizar a reação produzida para combater um determinado patógeno mesmo depois que a infecção termina e o invasor é eliminado do corpo.

O objetivo das vacinas é criar essa memória no organismo, explica Mariane Amano, imunologista e pesquisadora no Hospital Sírio-Libanês.
“Independente do método usado na vacina, a ideia é colocar no corpo pedaços do vírus para que nosso sistema fique pronto para ter uma resposta mais rápida em um segundo contato”, afirma Amano.
As vacinas são a principal maneira de aumentar o poder do sistema imunológico.

Para Cristhieni Rodrigues, médica infectologista do Hospital Santa Paula, um sistema imunológico em bom estado depende do equilíbrio do organismo. Contribuem uma alimentação equilibrada, sono regular, controle do estresse e atividades físicas. Exercícios físicos exagerados e sem descanso podem ter um efeito contrário, porém.A médica t

ambém alerta que a obesidade pode causar uma sobrecarga do sistema imunológico que prejudica uma resposta mais eficiente contra doenças.
Os suplementos de vitaminas devem ser usados em casos específicos de pacientes que não conseguem tirar os nutrientes necessários dos alimentos e com acompanhamento médico, diz Rodrigues.

Aguardar imunidade coletiva natural é perigoso, dizem especialistas A pandemia da Covid-19 reviveu um conceito antigo da medicina conhecido como imunidade coletiva, cujo princípio é simples: quando uma parcela suficiente de pessoas é imune a determinado patógeno, seja por já ter tido contato com o vírus no passado e ter desenvolvido anticorpos de memória, seja por vacinação, o parasita tem dificuldade de encontrar novos hospedeiros e a taxa de contágio vai caindo até, por fim, definhar.

Segundo Daniel Santos Mansur, da UFSC, esse conceito é muito útil quando temos a vacina, mas ela não está disponível para todos. Políticas de vacinação tendem a priorizar as populações mais vulneráveis, podendo assim atingir uma imunidade coletiva quando uma determinada parcela da população já está imunizada.

Especialistas estimam em cerca de 60% a parcela de pessoas vacinadas necessárias para impedir o contágio. Essa taxa varia de acordo com a forma de disseminação da doença e seu potencial infeccioso.

No caso da gripe comum -disseminada pelo vírus influenza-, a circulação do vírus é diminuída quando cerca de 30% a 40% da população é vacinada contra a doença.

Um estudo publicado no último dia 24 no medRxiv estipulou qual seria a taxa de imunidade coletiva e índice de reprodução (R0) necessários para conter a pandemia em quatro países: Bélgica, Inglaterra, Portugal e Espanha.

Segundo os pesquisadores, tendo como base modelos epidemiológicos de disseminação e transmissão do Sars-CoV-2 calculados para populações heterogêneas e considerando a chance de infecção individual, a imunidade coletiva chegaria quando cerca de 10% a 20% da população já se infectou.

Essas estimativas, no entanto, são baseadas em cálculos matemáticos e não há ainda certeza se a imunidade de grupo será atingida nesse patamar. Vale ressaltar que ainda é incerto por quanto tempo os anticorpos contra Covid-19 permanecem na população.

Os autores concluem que aguardar por uma imunidade coletiva natural é perigoso, sendo necessária cautela frente à população mais vulnerável ao risco de contágio e propagação da doença em suas comunidades.

Para Natália Pasternak, pesquisadora do ICB-USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, esses números são estimativas que os cientistas podem tomar como base para avaliar modelos epidemiológicos, mas é importante deixar claro que essa taxa não se comportará da mesma maneira em diferentes cidades.

Outra pesquisa, realizada na Espanha, apontou que apenas 5% da população possui anticorpos contra Sars-CoV-2. Os autores afirmam que adotar uma estratégia de imunidade coletiva natural seria catastrófico, implicando em um número muito maior de óbitos e um colapso ainda mais severo do sistema de saúde.

Em Manaus (AM), segundo levantamento sorológico batizado de Epicovid, realizado pela Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) em parceria com o Ministério da Saúde, cerca de 12,5% da população apresentou sorologia positiva para Sars-CoV-2. A capital amazonense acumula, até o momento, 35.592 casos e 2.013 óbitos.

“Não parece ser uma estratégia factível agora [aguardar a imunidade coletiva], mas podemos usá-la quando a vacina estiver pronta”, finaliza Mansur.


Fonte: Folhapress

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