25 de julho de 2020 às 15h51m
Entenda a importância de preservar os manguezais, um dos ecossistemas mais importantes do planeta

Em 2019, quase duas toneladas de lixo foram retiradas dos manguezais do Ceará. Ecossistema aparece em pelo menos 22 municípios da Zona costeira cearense, com quatro espécies

Fundamentais para a retenção de carbono e berçário da vida marinha, os manguezais encontram ameaça na expansão urbana, no desmatamento e na poluição. Em 2019, quase duas toneladas de lixo foram retiradas dos manguezais do Ceará por meio da iniciativa Limpa Mangue Brasil, do Ecomuseu Natural do Mangue. O Ceará é o 8º estado com maior área de mangues no País, com 19.518 hectares, segundo o Atlas dos Manguezais do Brasil de 2018, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Enquanto o manguezal representa o ecossistema, isto é, o conjunto de todos os organismos que vivem nesse ambiente, o mangue diz respeito à vegetação encontrada nesses locais. Um levantamento bibliográfico ainda em construção realizado pelo Ecomuseu revela ocorrência de manguezais em pelo menos 22 municípios da zona costeira cearense.

No território cearense, os manguezais estão situados principalmente em áreas de estuário, onde há encontro entre um rio e o mar. Esses são ambientes propícios para os mangues.

O ambientalista e diretor do Ecomuseu, Rusty Sá Barreto, afirma que é possível encontrar quatro espécies de mangues no Estado: o mangue vermelho (Rhizophora mangle), o mangue preto (Avicennia schaueriana), o mangue branco (Laguncularia racemosa) e o mangue de botão (Conocarpus erectus).

“O manguezal não precisa do ser humano. O ser humano é que precisa dele. Se a gente deixar o manguezal em paz, ele se recupera quase sozinho. A gente dá uma mão, tira o lixo, chama a atenção”, enfatiza Barreto. Pelo menos dois hectares de vegetação foram reflorestados por meio da ações do Ecomuseu, segundo o diretor.

A bióloga Gabriela Ramires explica que os mangues liberam propágulos, que são como “embriões”. Eles se soltam de plantas adultas e conseguem colonizar novas áreas ainda descobertas, e, assim, “o mangue consegue se expandir” por conta própria. Ela destaca que os manguezais cearenses abrigam uma rica fauna ameaçada de extinção.

“Seja em seus lodaçais, nas pradarias submersas ou em suas gamboas, a fauna resiste com valiosíssimos representantes como as aves migratórias do ártico, pelos peixes-bois-marinhos, cavalos marinhos e tartarugas numa composição incomum e sob grandes ameaças”, alerta a também pesquisadora do projeto Aves Migratórias da Associação de Pesquisa e Preservação dos Ecossistemas Aquáticos (Aquasis).

A biodiversidade encontrada nos manguezais é de grande valia para as comunidades costeiras, segundo a bióloga. Isso porque “fornece de alguma forma suporte para 95% dos pescados que chegam à nossa mesa”. Há, portanto, uma importante economia girando em torno dessa fonte de renda.

Entre as ameaças incidentes sobre os manguezais estão a substituição de habitats extensos por carciniculturas (criação de camarões), saliniculturas, pesca com uso de bombas e outras formas predatórias, além de kitesurf sem ordenamento. “Proteger esse ecossistema é proteger a nossa saúde, nossos recursos econômicos e essa fauna, que tem todo direito de continuar existindo”, realça Ramires.

Estuário do rio Cocó

O Ecomuseu Natural do Mangue promove ações de educação ambiental na região da Sabiaguaba e do Parque Estadual do Cocó há 18 anos. Recentemente, as dunas da Sabiaguaba foram alvo de polêmica após o Conselho Gestor da Sabiaguaba (CGS) aprovar início de estudo para um empreendimento em 50 hectares de Área de Proteção Ambiental (APA). 

Conforme Rusty Sá Barreto, o local visado pela obra fica próximo a uma área de manguezal. Ele é membro do Conselho, representante da Associação dos Amigos do Ecomuseu do Mangue, e explica que não conseguiu comparecer à reunião de aprovação. “Meu voto não seria a favor principalmente porque é uma área muito grande, precisava e precisa de estudos maiores sobre de que forma seria construída”, diz.

 

A bióloga Gabriela Ramires pondera que o impacto ambiental causado por uma construção como essa poderia ser sentida também no manguezal encontrado no estuário do rio Cocó. “O intenso desmatamento geraria quantidade grande de material orgânico sendo levado desse solo, o que aumentaria a quantidade de areia na calha do rio, que seria lixiviado para dentro do estuário”, esclarece.

Desmatamento

O ICMBio estima que 25% dos manguezais em todo o Brasil tenham sido destruídos desde o começo do século 20. No Nordeste, pelo menos 40% de extensões contínuas de manguezais foram suprimidas. Para o equilíbrio climático, o dado é alarmante. Isso porque os mangues absorvem cinco vezes mais carbono do que qualquer outra floresta.

Além disso, o País tem a terceira maior área de manguezais do mundo, abrigando a maior área contínua desse ecossistema no planeta, que vai do Amapá à Santa Catarina, chegando a mais de 1,3 milhão de hectares de mangue.

Os manguezais recebem proteção jurídica do Código Florestal, sendo considerados Área de Preservação Permanente (APP) em toda a sua extensão. Além disso por serem ecossistemas associados ao bioma Mata Atlântica (Lei Federal 11.428/2006), eles têm proteção especial contra a sua supressão vegetal.

No Ceará, das 27 unidades de conservação estaduais administradas pela Secretaria de Meio Ambiente (Sema), cinco estão diretamente relacionadas aos manguezais: Parque Estadual do Cocó, APA do rio Pacoti, APA do estuário do rio Ceará - rio Maranguapinho, APA do estuário do rio Curu e APA do estuário do rio Mundaú.

Segundo Leonardo Borralho, articulador das Unidades de Conservação Estaduais no Ceará, a Sema “tem avançado” na gestão das áreas do Estado com presença manguezais.

Contudo, ele comenta a proteção efetiva dessas áreas depende também do envolvimento das esferas municipal e federal, na criação de “instrumentos territoriais de crescimento ordenado e sustentável na zona costeira, tais como Planos Diretores municipais, Zoneamento Ecológico Econômico, Planos de Manejo das Unidades de Conservação e os Planos Municipais da Mata Atlântica”.

 

Ceará terá viveiro para mudas de mangues até o fim do ano

Durante o seminário virtual da Semana Estadual de Proteção aos Manguezais nessa sexta-feira, 24, o secretário do meio ambiente do Ceará, Artur Bruno, anunciou a construção de um viveiro no Parque Adahil Barreto para produção de mudas de mangue e mata de tabuleiro. A ideia é plantar 50 mil mudas anuais desses tipos de floresta.

A estrutura será implementada em parceria com a Prefeitura de Fortaleza. O preparo do local que receberá a instalação do viveiro já foi iniciado e a previsão é de que as obras terminem ainda neste ano, conforme a Coordenadoria de Biodiversidade (Cobio) da Sema.

No mesmo evento, o secretário mencionou a pretensão de formular um
Plano Estadual de Recuperação dos Manguezais. A sugestão foi comemorada pelo deputado Acrísio Sena (PT), que também participou da ocasião.

O deputado, autor da lei que deu origem à Semana, sugeriu ainda uma ação para discutir a implementação nos planos diretores municipais onde haja presença de manguezais para que constem a preservação dessas áreas.

O Ceará é o primeiro estado do Brasil a ter uma Semana Estadual de Proteção aos Manguezais. O evento acontecerá sempre no período que compreenda o dia 26 de julho de cada ano, que marca o Dia Mundial de Proteção aos Manguezais.

Saiba mais sobre o Ecomuseu Natural do Mangue:

Contato: (85) 98748 5296 e (85) 99112 6779 ou museunaturaldomangue@hotmail.com
Funcionamento: apenas com agendamento, de segunda-feira à sábado (durante isolamento social não está realizando visitas guiadas)
Mais informações: @ecomuseunaturaldomangue (Instagram e Facebook) ou site


Fonte: O Povo

Compartilhar
Publicidade
Todos os direitos reservados para avol.com.br - no ar desde 2001