16 de julho de 2020 às 08h26m
Tensão: Guerra Fria 2.0 entra em nova fase com ameaças

A nova Guerra Fria, protagonizada por Estados Unidos e China, ganhou uma nova fase com a escalada nas ameaças mútuas de sanções entre as duas maiores economias do mundo.

Em dois dias, Washington disparou três ataques frontais aos interesses de Pequim, dando continuidade lógica à disputa que se acentuou com a ascensão de Donald Trump ao poder, em 2017.
Analistas se questionam, contudo, sobre os limites de tais ações, dada importância da China em um mundo em que ela é a maior responsável pelo comércio, com 12,4% do total de importações e exportações em 2018. Impulsionado por uma campanha à reeleição em que está numa posição difícil contra o democrata Joe Biden, e parece decidido a fazer barulho na frente externa, o republicano Trump foi em frente.

 

Na segunda (13), o secretário de Estado, Mike Pompeo, fez o mais duro ataque às pretensões territoriais do regime comunista sobre o mar do Sul da China -a principal rota de comércio de Pequim, que tem 20% do PIB ligado às exportações. No dia seguinte, o aliado americano Reino Unido baniu a gigante chinesa Huawei de suas redes de 5G, a tecnologia que embasará a internet do futuro, algo que Trump se gabou de ter “feito sozinho”.


E o presidente americano arrematou o dia cumprindo sua promessa de acabar com o status de parceiro comercial privilegiado com Hong Kong devido à nova lei de segurança chinesa sobre o território devolvido por Londres em 1997. A legislação, que na prática tolhe o dissenso na região conturbada por protestos pró-democracia desde 2019, é também um dos motivos para a decisão do governo de Boris Johnson sobre o 5G. O outro foi a pressão de Trump, que proibiu em maio o fornecimento de chips com tecnologia americana, a maioria no mercado, para a Huawei.

Opressão


Além disso, os EUA prometeram aplicar sanções a quem “oprimir o povo” honconguês sob a nova lei, uma ampliação de ato já aprovado no ano passado, no auge dos protestos. O resultado foi uma dura reação de Pequim, que nessa quarta (15) prometeu aplicar sanções a pessoas e instituições americanas ligadas ao que considera interferência em seus assuntos internos.“O governo chinês se opõe resolutamente e condena” as ações de Washington, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores. Na prática, o modelo que deverá ser aplicado é o já visto quando os EUA aplicaram sanções a quatro autoridades chinesas acusadas de repressão contra muçulmanos na província de Xinjiang: medidas idênticas e proporcionais contra políticos americanos envolvidos em atos congressuais sobre o tema. Assim, os senadores que criaram o Ato de Autonomia de Hong Kong, sancionado na terça por Trump, deverão sofrer as sanções.


O ato por enquanto é mais político, e ambos os países podem absorvê-lo. Não é muito diferente das expulsões mútuas de espiões entre EUA e União Soviética durante a versão 1.0 da Guerra Fria, encerrada com o fim do império comunista em 1991. O mesmo se dá na arena da pandemia da Covid-19, em que ambos os países trocam acusações sobre o manejo da crise. Nesta quarta, Mike Pompeo disse que a investigação sobre a origem do novo coronavírus, a ser feita pela Organização Mundial da Saúde, servirá para “lavar” a reputação de Pequim. Os EUA deixaram a OMS. A coisa muda de figura com o acirramento da disputa comercial envolvendo a Huawei, por outro lado. Londres havia resistido à pressão de Trump até aqui, só limitando parcialmente a presença da empresa, que já é dominante nas tecnologias atuais, como o 4G.


Em mais uma ameaça, Mike Pompeo afirmou nesta quarta que os EUA poderão aplicar sanções a funcionários da Huawei. Ele irá a Londres na semana que vem para discutir o assunto. A Huawei nega a alegação central dos EUA, de que redes da empresa podem servir de vertedouros de dados para a espionagem chinesa. A chancelaria em Pequim ressaltou a fala de Trump, de que havia logrado uma vitória com a decisão de Boris, como prova de que foi um ato meramente político.


“É desalentador. A forma com que o Reino Unido tratou a Huawei, simplesmente achutando, está sendo observado bastante de perto por outras empresas chinesas, e será muito difícil ter confiança para mais investimentos”, resumiu o embaixador chinês em Londres, Liu Xiaoming, num evento do Centro para Reforma Europeia, nesta terça. O Reino Unido é o país europeu com mais investimento chinês, 24% do total aplicado no continente em 2018.

 


Fonte: O Estado

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