13 de julho de 2020 às 09h04m
Educação financeira é caminho para superar a crise nas finanças pessoais impactadas pela pandemia do novo coronavírus

Planejamento poder salvar as finanças pessoais e garantir a sobrevivência dos negócios em situações inesperadas de crise econômica, como a que estamos vivendo agora por conta da pandemia do novo coronavírus

perda e a diminuição da renda, causadas pela crise da Covid-19, pressionaram mudanças nos hábitos de consumo. Somado a isso, o isolamento social instigou e acelerou o processo de conscientização. Agora, com menos poder de compra e mais seletivo, o consumidor de todas as classes econômicas começa a experimentar e entender a necessidade da educação financeira, adequando-as de acordo com as distintas realidades, para reduzir os efeitos da recessão.

Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos em Finanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGVcef) e a Toluna mostra que 63,93% dos entrevistados sofreram redução dos ganhos. Realizado em maio, o levantamento contou com 806 participantes em todo o País, sendo 45% homens e 55% mulheres, maiores de 18 anos. 

Para a coordenadora da pesquisa e professora do Centro de Estudos em Finanças (FGVcef) da FGV Eaesp, Claudia Yoshinaga, o brasileiro teve de enfrentar a corrosão na renda, cortando e repensando os gastos. "A gente tem ouvido falar com nunca de uma reserva de emergência para ter um colchão de segurança diante de uma crise. Muitos que não olhavam para isso estão despertando para essa consciência", diz. Ela acrescenta que a sociedade ficou mais tempo em casa, ambiente favorável para uma quebra de paradigma em relação ao planejamento doméstico. 

A superintendente da Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), Cláudia Forte, reitera que o quadro sanitário provocou um grande movimento reflexivo. "O susto e o despreparo em que nos encontrávamos enquanto nação, na chegada da crise, obrigatoriamente, coloca-nos num lugar como seres pensantes a refletir sobre isso. De uma maneira ou de outra, teremos alguns conceitos de consumo, finanças e endividamentos revisitados ao longo dessa pandemia", avalia. 

Ela explica que a educação financeira é uma possibilidade viável para todos e começa a partir de pequenas mudanças cotidianas para viabilizar a organização e prática de qualquer projeto familiar, pessoal ou profissional. Os menos favorecidos economicamente, explica, podem começar com ações como guardar o troco da padaria, fechar a torneira, reduzir o tempo no banho, desenvolvendo uma rotina e gerando economia. 

"Acho que são pequenos gestos que podem tirá-lo desse lugar da vulnerabilidade. Não somente na aquisição de renda, é, sobretudo, da autonomia, do processo mais consciente da tomada de decisão", observa. Cláudia avalia que, a partir dos novos hábitos, a mudança de comportamento ocorre lentamente a preparar o terreno para uma mobilidade social. 

O caminho da educação financeira começa pela análise das dívidas e potencial econômico. Depois, um raio x sobre o que se consome. A pessoa precisa ter conhecimento do quanto da renda é destinado aos chamados gastos supérfluos e entender a razão por trás da cada compra de produto ou contratação de serviço. 

Identificadas as questões, anota-se o consumo para saber todo o percurso do seu dinheiro. "Todos devem ser listados. Quando somamos, são os pequenos gastos que abrem um rombo", aponta. Também é preciso renegociar as dívidas, adequar prazos e incluir toda a família no plano e estipular metas para cada um. Para as crianças, por exemplo, é importante reduzir o uso de eletrônicos e pedir a contribuição com a utilização mais eficiente da tecnologia. 

Empreendedores também precisam incorporar a gestão financeira em seus negócios. As pequenas empresas, que têm um peso importante na economia brasileira, foram as mais impactadas pela crise financeira causada pela pandemia do novo coronavírus, e muitos precisam fechar as portas. Com um planejamento, talvez, fosse possível ter um caixa para situações de fechamento temporário. 

Para Mônica Arruda, analista do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), é importante que os empresários invistam em conhecimento, busquem orientações, consultorias e ferramentas de gestão. 

"Manter controles financeiros atualizados para ter informações para tomada de decisões, elaborar um fluxo de caixa, analisar resultados para conhecer o lucro, conhecer custos e despesas e adequá-los à realidade da empresa, equilibrar prazos médios de compra e vendas, analisar margens e preços. São ações que precisam ser constantes para a manutenção da saúde financeira da empresa, seja em tempo de prosperidade ou de crise", frisa. 

Onde aprender mais sobre educação financeira de graça

Há diversos cursos onlines gratuitos disponíveis. O POVO compilou alguns deles para ajudar no seu orçamento familiar ou no seu negócio; veja

Enape

A Escola Nacional de Administração Pública (Enape) é voltada para servidores públicos, mas tem um extenso portfólio de 350 cursos, sendo 40 sobre educação financeira e fiscal.

Veja as listas dos que podem ajudar na gestão das finanças

1- Me Poupe! Invista com Nathalia Arcuri (20h)

A Nathalia Arcuri, fundadora da primeira plataforma de entretenimento financeiro do Brasil, dá dicas sobre educação financeira de um jeito simples, com vídeos divertidos e dinâmicos

Link: escolavirtual.gov.br/curso/249

2 - Gestão de Finanças Pessoais (20h)

O curso foi desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, em parceria com a Escola de Administração Fazendária (Esaf), com foco na necessidade de apresentar conceitos básicos de gestão de finanças pessoais e estimular a reflexão sobre temas do cotidiano das pessoas de forma lúdica.

Link: escolavirtual.gov.br/curso/170

3 - Tesouro Direto (20h)

O curso apresenta as características e vantagens de se investir no Programa com o objetivo de aproximar o cidadão do investimento e da poupança, estimulando esse comportamento.

Link: escolavirtual.gov.br/curso/244

4 - Formação de Multiplicadores da Série "Eu e Meu Dinheiro" (20h)

A ideia é sensibilizar os participantes para a gestão das finanças pessoais e a capacitá-los a conduzir grupos de discussão. Para cada episódio da série, o curso apresenta um vídeo de perguntas para reflexão, um debate de especialistas sobre os temas abordados no episódio e um guia para apresentação e discussão do vídeo em grupo. Além destes, você pode filtrar outros cursos por meio do link: suap.enap.gov.br/portaldoaluno/

FGV

A Fundação Getúlio Vargas também tem uma gama de cursos que podem auxiliar no processo cotidiano de aprendizagem da educação financeira

1 - Como organizar o orçamento familiar (12h)

O curso ensina a identificar seu perfil financeiro, planejar e organizar a sua vida financeira em caso de endividamento.

Link: educacao-executiva.fgv.br/cursos/online/curta-media-duracao-online/como-organizar-o-orcamento-familiar

2 - Como planejar a aposentadoria (10h)

O plano de ensino traz o esclarecimento sobre a importância de se programar para o período de vida pós-trabalho e conhecimento sobre métodos de planejamento da aposentadoria.

Link: educacao-executiva.fgv.br/cursos/online/curta-media-duracao-online/como-planejar-aposentadoria

3 - Introdução às relações de consumo e aos direitos básicos (5h)

Neste curso, você aprende a fazer uma análise dos princípios básicos de uma relação justa entre fornecedor e consumidor por meio dos fatos que originaram o direito consumerista no âmbito nacional, a classificação das relações de consumo e dos seus agentes e ampla noção dos direitos e deveres básicos.

Link: educacao-executiva.fgv.br/cursos/online/curta-media-duracao-online/introducao-relacoes-de-consumo-e-aos-direitos-basicos

4 - Como Gastar Conscientemente (8h)

Orienta você para que consuma de maneira consciente de forma a conquistar seus objetivos de vida.

Link: educacao-executiva.fgv.br/cursos/online/curta-media-duracao-online/como-gastar-conscientemente

5 - Como fazer investimentos 1 (12h)

Nele, são apresentados os pontos essenciais para definição e realização de investimentos;características de diversas aplicações, especialmente as relacionadas a fundos de investimento.

Link: educacao-executiva.fgv.br/cursos/online/curta-media-duracao-online/como-fazer-investimentos-1

6 - Como fazer investimentos 2 (8h)

Com um conteúdo mais aprofundado, ensina e discute os conceitos e métodos que irão ajudá-lo a aplicar seu dinheiro com inteligência e consciência dos riscos.

Link: educacao-executiva.fgv.br/cursos/online/curta-media-duracao-online/como-fazer-investimentos-2

Sebrae

Dentre os inúmeros cursos, o Sebrae tem 18 temas de finanças disponíveis gratuitamente. Veja alguns deles:

1 - Como captar recursos para o seu negócio (2h)

Entenda quando, onde e como buscar financiamentos em bancos comerciais, agências de fomento ou bancos de desenvolvimento. E também analise se o empréstimo é a melhor opção.

Link: sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/cursosonline/como_controlar_o_fluxo_de_caixa

2 - Como gerenciar as finanças da sua empresa (2h)

O curso oferece capacitação para aprender a importância de gerenciar as finanças da sua empresa para alcançar melhores resultados. No entanto, é exclusivo para quem já tem um negócio formalizado. Para inscrever-se, informe o CNPJ da sua empresa ou MEI.

Link: sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/cursosonline/como_gerenciar_as_finanças_da_sua_empresa

3 - Educação financeira empresarial (2h)

Entenda as vantagens da educação financeira e de que forma ela pode estimular a utilização das ferramentas de gestão dentro da sua empresa. Este curso é exclusivo para quem já tem um negócio formalizado. Para inscrever-se, informe o CNPJ da sua empresa ou MEI.

Link: sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/cursosonline/educacao_financeira_empresarial

4 - Gestão financeira (3h)

Muitos problemas de uma empresa podem ser solucionados com uma boa gestão financeira. O curso ensina como se posicionar para controlar as finanças em seu negócio.

Link: sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/cursosonline/gestao_financeira

Para acessar os demais cursos, entre em: sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/cursosonline

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Planejamento para recomeçar

"Foi tudo tão frustrante, mas isso teve de passar rápido. Eu, como mulher negra, da periferia, e mãe solo, já tenho o costume de estar na luta. Independentemente da circunstância, eu não pude parar". É assim que a administradora e microempreendedora Zélia Costa, 36, relata a aflição de fechar as portas do seu negócio após três meses da abertura, em março, devido à pandemia.

O quiosque de comida regional Maria Bonita, na Aldeota, foi um sonho realizado graças à rescisão trabalhista. Uma forma também de ajudar a renda da mãe, que se tornou a cozinheira da microempresa. Quando a crise sanitária iniciou, a esperança de "que isso logo ia acabar" amainou o clima de tensão, mas, com o passar dos dias, o desespero foi inevitável.

Zélia buscou uma negociação com a imobiliária para conseguir manter o negócio e diminuir o prejuízo, enquanto não poderia reabri-lo. "Passei 30 dias com o estabelecimento fechado, tentando prorrogação e descontos no aluguel, mas eles eram irredutíveis. Foi horrível a sensação de derrota", recorda.

Durante o período em que esteve parada, fez um curso de finanças pessoais. O conhecimento adquirido sobre como lidar com o dinheiro, poupar, investir e reorganizar as contas ajudou a ter novas perspectivas e na tomada de decisões em meio às dificuldades.

"Eu vi que eu poderia pegar um empréstimo para manter o negócio aberto e correr atrás do prejuízo ou para quitar as dívidas, pagar o pessoal e investir em um delivery", conta. Ela fez então um cálculo, colocando todos os custos dos dois modelos de empreendimentos para definir qual a alternativa era a melhor naquele contexto.

Aproveitou a moto disponível em casa para o irmão fazer entrega e a mãe continuou fazendo os alimentos. Dessa forma, todos conseguiriam ter uma fonte de renda na crise. Para ela, as mudanças devem perdurar no pós-pandemia.

"Hoje, eu vejo que os custos de manter um estabelecimento aberto são bem mais altos e a escolha do local foi errada. Talvez, o ideal seria ter começado aos moldes de que estou operando hoje", calcula.

"Agora, com a minha empresa na periferia, aprendi que aqui é o melhor lugar para lidar com a crise. As pessoas se ajudam rapidamente, divulgam e isso tem levado minha empresa para frente", acrescenta.

"Diante de tudo isso, aprendi que independentemente da empresa ter um ou dois meses, é preciso começar a fazer uma reserva para emergências. Não adianta esperar para sobrar ou a empresa deslanchar. Tenho começado a guardar nem que sejam R$ 20, R$ 50 ou qualquer valor. É preciso ter essa educação para estar preparada nos momentos difíceis", considera.

Serviço

Whatsapp Maria Bonita
(85) 9.8195-8728

Instagram
@maria.bonita.delivery

 

Novos olhares para o consumo

A mercadóloga Emanuele Silveira, 33, está entre os que sofreram com a corrosão da renda familiar devido à crise econômica, mas não tiveram perda total. Em casa, assim como ela, os pais são autônomos e foram atingidos com o fechamento do comércio.

A situação forçou a mudança do consumo, mas, para além disso, a rotina na quarentena transformou a sua relação com o dinheiro. As refeições fora de casa já não eram mais viáveis diante do isolamento social, e o consumidor de produtos de beleza e vestuário perderam o sentido no contexto atual.

"Com um poder aquisitivo reduzido, a prioridade passou a ser itens para casa, principalmente, alimentação e limpeza, já que que passamos muito mais tempo em casa", explica.

"Vestuário e beleza definitivamente ficaram em segundo plano, inclusive, foi o maior período da minha vida adulta sem consumir esses itens. Além de não serem algo prioritário, também não tive necessidade já que estava trabalhando de casa", acrescenta.

Emanuele conta que o orçamento foi modificando, sendo ajustado à atual realidade, necessidades e incertezas que ainda estão no percurso. Agora, consumir de maneira mais consciente, seletiva e guardar recursos para uma emergência passaram a ser prioridades. "As reservas se tornaram ainda mais importante, tanto do ponto de vista de orçamento familiar quanto empresarial", afirma.

 

Sobre a série

De repente, as ruas foram esvaziadas. As casas ficaram cheias. O medo, a aflição — e o luto — se espalharam. A desigualdade socioeconômica recrudesceu. Em quase cinco meses da chegada oficial da pandemia ao Brasil, muitas realidades foram atravessadas e transformadas. No aspecto econômico, o mercado de trabalho encolheu, perdendo 7,8 milhões de posto de trabalho em todo o País, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Muitos perderam totalmente a renda. Os informais, que cresciam a cada dia, perderam a perspectiva com o mercado fechado e agora sobrevivem com o auxílio emergencial de R$ 600, que está prestes a acabar. Outros sequer conseguiram o benefício. Outros tiveram os ganhos corroídos.

Todas as esferas governamentais precisaram redirecionar verbas para a saúde pública, gerando desequilíbrio nos cofres. Uma situação de asfixia financeira que atingiu sociedade, empresas — sobretudo as pequenas —, estados e municípios.

A resposta para ajustar o orçamento doméstico e empresarial em meio a essa crise é complexa, a depender do contexto de cada pessoa ou instituição. Mas, neste especial de três episódios, O POVO segue o rastro do dinheiro escasso para falar de uma educação financeira viável para todas as classes sociais.

 


Fonte: O Povo

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