18 de maio de 2020 às 10h24m
Eduardo Girão defende um planejamento de reabertura

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE), embora não se oponha às medidas rígidas de isolamento adotadas hoje no Ceará, acredita que mais setores da economia terão que ser abertos em breve, para evitar maiores problemas inclusive na saúde das pessoas

le conversou com O Estado sobre isso e outros assuntos, como sua atuação no Congresso, o apoio a Capitão Wagner na eleição deste ano em Fortaleza e a saída de Sergio Moro do governo federal. Confira:


O Estado. Como avalia as medidas de endurecimento do isolamento adotadas no Ceará recentemente?
Eduardo Girão. Eu sei que não é fácil estar na pele do governador do Ceará, é uma situação realmente muito delicada. Ficou evidente que nas últimas décadas, não apenas no governo dele, mas também em outros, ficou evidente com a crise que estamos vivendo que saúde nunca foi a prioridade. Se você pegar os 184 municípios, menos de 10% têm estrutura de UTI completa para segurar essa situação. Isso mostra o quanto a população está desprotegida na saúde, sem solução de continuidade. Mas ao mesmo tempo, principalmente no Nordeste e no Ceará, não existe um colchão social que se aguente por muito tempo a questão econômica, que a gente não tenha pelo menos alguns setores da produção ativos. Então é preciso que não seja pra agora, porque estamos chegando no pico, mas já era pra ter um planejamento com entidades produtivas para se ter uma noção de quando vai poder voltar, com o máximo de segurança sanitária, óbvio, com máscaras, com álcool em gel, sem aglomerações. Isso dá pra ser feito de forma programada, como tem acontecido nas atividades essenciais. Até para as pessoas terem uma noção de receita, de como vai poder planejar o orçamento, porque estamos com muitas pessoas que não aguentam passar mais de 60 dias sem ter nenhum tipo de remuneração.


OE. Você tem apresentado projetos relacionados ao enfrentamento à crise da covid-19. Quais você destaca?
EG. Apresentei, por exemplo, projeto para tentar conter situações como: estão indo bilhões para os estados, através inclusive de emendas parlamentares, e temos conseguido enviar muitos recursos para nossos estados. Então entrei com dois projetos, haja vistas muitas denúncias que têm chegado e que a gente tem acompanhado, porque é nosso papel fiscalizar e legislar. Um projeto para dobrar a pena para crimes contra a administração pública e outro que torna esses crimes de corrupção crimes hediondos. Num momento como esse, em que as pessoas estão fragilizadas, aflitas. Entrei com outro recentemente, que abre uma linha de crédito para profissionais liberais, porque o comércio, um escritório por menor que seja está parado, as pessoas não estão atendendo ninguém, e isso também pros profissionais liberais de várias categorias, dentista, fisioterapeuta, fotógrafo, sociólogos, economistas, pessoas que têm estrutura menor, mas que têm que pagar luz, aluguel, então é uma linha de crédito de R$ 50 mil.


OE. Estamos vendo hoje um embate entre o presidente da República e o ex-ministro Sergio Moro, desde que ele deixou o governo. Como você enxerga isso?
EG. No dia que houve a demissão, eu fui para a Praça dos Três Poderes e até fiz uma live demonstrando o sentimento que mantenho, acredito que o crime foi favorecido com essa demissão. Enfraqueceu também o combate à corrupção. O Moro estava fazendo um grande trabalho, um brasileiro que inspirou milhões de pessoas, inclusive a mim. O que mais me preocupa é a aproximação com o chamado centrão, a turma da velha política, do toma-lá-dá-cá, que está se aproximando do governo federal. Sempre mantive uma postura de independência total, há coisas que acho importante pro Brasil, aí a gente vota com o governo; outras a gente discorda e vota contra. Acredito que a saída do Moro não foi boa para esse momento, porque a maior chaga que temos hoje é a da corrupção. Temos sim crise econômica, crise social, política, mas a maior crise que vivemos sem dúvida é a crise moral.


OE. Você está apoiando o pré-candidato Capitão Wagner, do Pros, para as eleições deste ano em Fortaleza. Como acha que essa crise vai impactar a candidatura?
EG. É uma pessoa que conhece profundamente a cidade de Fortaleza. Eu acredito que a alternância do poder é muito saudável numa democracia, esse grupo que está aí já está há mais de uma década e acredito que chegou o momento de uma mudança. Chegou o momento de se ver outras alternativas, de uma administração feita com base na eficácia da gestão, enxugamento de eventuais excessos, prioridades nas obras, que se forem feitas obras grandes que seja para as pessoas mais pobres, da periferia. É importante porque é uma pessoa que vem do povo, que tem uma história bonita na política e estou apoiando ele para que a gente tenha essa tão esperada alternância de poder na Capital.


OE. Você entrou como novato no Senado ano passado, o que mais tem chamado sua atenção desde então?
EG. Eu esperava que a gente ia ter um avanço maior nesse espírito com que o povo brasileiro foi às urnas, querendo romper um sistema político corrupto, carcomido, apodrecido. Esperava que íamos poder avançar mais em pautas que pudessem reforçar esse combate à corrupção, e vejo que infelizmente tanto no Senado quanto no Congresso como um todo não se vê essa prioridade. Ainda se vê o toma-lá-dá-cá, isso não foi rompido.

A gente tem procurado fazer nosso contraponto, eu participo de um grupo chamado Muda Senado, participam 21 senadores e estamos bem unidos nesse propósito, fazendo resistência forte e com pautas que acreditamos que são as demandas da sociedade brasileira. Outra coisa que chamou minha atenção quando cheguei aqui foi a quantidade de regalias, benefícios que os parlamentares ainda têm direito no País. Tem carro oficial pra senador, um negócio que não tem necessidade; apartamento funcional, quando pode ficar numa pousada, já que cada parlamentar passa geralmente três dias no máximo em Brasília, aí fica parado gastando com manutenção. Tem também auxílio moradia, plano de saúde vitalício, aposentadoria especial, algo que não tem o menor cabimento nos dias de hoje. A gente abriu mão da maior parte desses benefícios, usamos uma equipe bem enxuta, com menos de 15 pessoas, e usamos menos de 40% da verba de gabinete.


OE. Você tem se pronunciado sobre a necessidade de atenção à crise da segurança no Ceará, que tem matado muito também, junto com o coronavírus, não é isso?
EG. A gente sabe que está vivendo uma pandemia que é terrível. No Ceará, por ser um hub, isso tomou proporções maiores do que em outros estados. Mas ao mesmo tempo não pode de jeito nenhum fazer de conta que não existe outra pandemia que voltou a crescer: depois de melhorar os índices nos últimos anos, agora em 2020 a pandemia da violência já matou 1.500 pessoas e o valor da vida é igual para todo mundo. A gente fica triste com o que tá acontecendo com a perda de vidas humanas com a doença, mas também fica muito triste com a perda de vida de cearenses por causa da violência. Precisa ter um planejamento de um retorno gradual, com a máxima segurança sanitária possível, para que não aumente mais essa violência, porque a tendência é ela crescer com o desemprego.


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