11 de maio de 2020 às 10h48m
Uso excessivo de eletrônicos pode provocar doenças oculares em jovens e crianças

Os gêmeos João Mauricio e Carlos Victor, de 11 anos, têm personalidades diferentes. Enquanto um adora esportes, o outro é aficionado por games.

Durante este período de quarentena, a paixão de João teve que ficar de lado e ele acabou mergulhando no universo virtual do irmão Carlos.

Além dos momentos de lazer, os dois também usam seus celulares e computadores para manter contato com os amigos e acompanhar as aulas a distância. Tudo com supervisão da mãe, a escritora Cris Coelho, 41, que está atenta para dosar o tempo que eles vão passar em frente às telas para evitar excessos.

A preocupação de Cris, assim como a de milhares de pais, é evitar riscos à saúde, como possíveis danos à visão das crianças, como o surgimento de casos de miopia.
“É uma grande preocupação nossa a questão da miopia. Mas também nos preocupa os outros lados da questão. Não lançar mão da tecnologia significa depressão? Significa isolamento social? Significa um estudo incompleto?”, questiona a escritora.

Especialistas ouvidos pela reportagem reconhecem a dificuldade de diminuir o tempo de exposição às telas em meio à impossibilidade de permitir que crianças possam brincar na rua ou no condomínio, mas indicam algumas práticas que podem minimizar os riscos à saúde.

Durante períodos de estudos em plataformas online, por exemplo, é recomendável pequenas pausas, de pelo menos cinco minutos, a cada uma hora. “A cada uma hora ou uma hora e meia em frente ao celular ou computador, deve-se fazer intervalos, olhar pela janela e tentar focar objetos distantes. Isso ajuda a relaxar os olhos”, orienta o oftalmologista Leandro Cabral Zacharias.

Médico assistente do serviço de oftalmologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Zacharias diz que os pais devem acompanhar os filhos nessas pausas, de cinco minutos. “O ideal é os pais fazerem as crianças tamparem um olho de cada vez para fazer o exercício de foco. Às vezes, a dificuldade de enxergar pode surgir em apenas um olho”, explica.

Edna Almodin, presidente da SBO (Sociedade Brasileira de Oftalmologia) afirma, ainda, que quanto menor a tela, maior o esforço que o olho faz para focar objetos. Assim, caso seja possível acompanhar as aulas em computadores ou pela TV, o cansaço visual será menor.
“Quando uma pessoa se expõe muito ao celular, ocorre a fadiga dos olhos, a pessoa foca demais e o foco é um trabalho muscular”, explica Almodin. “O foco na tela eletrônica é pelo menos três vezes maior do que o esforço para ler um papel”, acrescenta.

De acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, ainda que a quarentena dure três, quatro ou cinco meses, esse período não seria suficiente para provocar casos de miopia pelo uso excessivo dos eletrônicos.
No entanto, em crianças ou jovens com pré-disposição, como casos na família, esse período pode funcionar como um gatilho para o aparecimento da doença.

Além disso, o hábito desenvolvido durante o isolamento poderá ser carregado quando a pandemia estiver controlada.
“O período de quarentena em si, com dois ou três meses, não seria suficiente para provocar miopia, mas pode deixar sequelas comportamentais”, diz a oftalmologista Andreia Zin. “As famílias se habituaram a usar os eletrônicos como babás. Então, para entreter as crianças, os pais costumam colocar vídeos ou joguinhos. Assim, cria-se uma geração dependente do eletrônico para se entreter”, alerta a especialista.

Além da miopia, longos períodos à frente de telas podem provocar ressecamento ocular. “Quando uma pessoa fixa os olhos na tela do computador, do celular ou do tablet, instintivamente ela pisca menos. E piscar menos prejudica a lubrificação dos olhos”, explica o oftalmologista Sansão Isaac.

Nesses casos, o tratamento poderá ser feito com o uso de colírios lacrimais, sempre com indicação de um médico.

A demora em identificar e iniciar esse tratamento poderá levar a criança a coçar mais a região dos olhos e provocar outras enfermidades, como ceratocone, que afeta a estrutura da córnea e apresenta sintomas como visão turva e sensibilidade à luz e claridade.
“A idade em que os sintomas do ceratocone apareciam usualmente era entre 10 a 15 anos. Atualmente temos visto crianças entre 3 a 5 anos de idade com miopias e astigmatismos altos, acima de 3 graus já com exames suspeitos de ceratocone”, afirma a dra. Edna Almodin.

Para evitar esta e todas as doenças citadas na reportagem, os especialistas são unânimes em afirmar que evitar os excessos é o melhor caminho para proteger a saúde dos olhos.


Fonte: Folhapress

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