17 de abril de 2020
OMS é pega no “tiroteio” entre Donald Trump e a China

Em abril de 2015, a direção da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma declaração reconhecendo erros no combate à epidemia de ebola que se encerrava no oeste da África e anunciando reformas.

“O ebola serviu como um lembrete que o mundo, incluindo a OMS, está mal preparado para um longo e sustentável surto”, disse a organização.


Entre as promessas feitas, estavam a criação de estruturas para responder a emergência sanitárias, maior envolvimento com comunidades e médicos e mais transparência na comunicação. A principal diretriz anunciada era “levar as ameaças de doenças a sério”. Cinco anos depois, a organização está sob ataque do presidente dos EUA, Donald Trump, que a acusa de repetir os mesmos erros no caso do coronavírus. O maior teria sido justamente não levar a sério a doença em seu início.


Anunciada na terça-feira (14), a decisão americana de suspender o financiamento à entidade, cortando US$ 400 milhões (15% do seu orçamento), veio acompanhada de uma crítica de fundo geopolítico. Além de, segundo Trump, ser ineficiente e opaca, a OMS se comportaria como serviçal da China, país que o presidente americano vê como um rival estratégico.


“A OMS falhou em seu dever básico e deve ser responsabilizada”, disse o presidente americano, que também criticou a entidade por ter “acreditado nas garantias dadas pela China”. Candidato à reeleição em novembro e sob intensa artilharia doméstica por ter subestimado a pandemia em seu início, Trump tem aumentado o volume contra a organização à medida em que as críticas sobre seu desempenho se avolumam.

Briga


Para Charles Clift, pesquisador da Chatam House, centro de estudos britânico, e ex-consultor da OMS, a ofensiva de Trump contra a entidade é efeito colateral de uma disputa bem maior. “Não é sobre a OMS, é sobre a briga de Trump com a China”, diz. Agência da ONU criada em 1948, a OMS é uma entidade de escopo limitado e com fragilidades evidentes, afirma o pesquisador.
“Ela se destina basicamente a atividades de coordenação sanitária internacional e assessoramento técnico”, declara. Para Clift, a capacidade da OMS de combater uma pandemia como a atual depende do empenho dos países membros. São eles que fornecem o financiamento e as informações para que as decisões técnicas sejam tomadas pela entidade. “A OMS se baseia apenas nos dados que os países passam”, afirma.


As principais críticas ao desempenho da OMS por parte de Trump e outros conservadores (inclusive no Brasil) são derivadas da hesitação de seu diretor-geral, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, em declarar uma emergência de saúde global logo no início do ano.

 

As maiores evidências dessa relutância, e de uma proximidade comprometedora do diretor-geral com a China, são alguns tuítes de janeiro. No dia 14 daquele mês, ele escreveu que “investigações preliminares conduzidas pelas autoridades chinesas não encontraram evidência clara de transmissão de humanos para humanos do novo coronavírus identificado em Wuhan”. Naquele momento, sabe-se agora, esse tipo de transmissão já ocorria.

 

Oito dias depois, Ghebreyesus tuitou que “a liderança e a intervenção do presidente [da China] Xi Jinping têm sido valiosas, e todas as medidas foram tomadas para responder ao surto”. No dia seguinte, quando cresciam as pressões para que a situação de emergência global fosse decretada, escreveu: “Não se engane. Essa é uma emergência na China, mas ainda não se tornou uma emergência de saúde global”. A emergência global só foi decretada pela OMS em 30 de janeiro.


Fonte: O Estado

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