04 de abril de 2020 às 15h54m
A urgência de treinar profissionais da saúde

Na quarta-feira, O POVO mostrou o drama da falta de leitos em hospitais pelo mundo; crise da Covid-19, no entanto, também ameaça recurso humano da Saúde

Não é só a capacidade de leitos em hospitais que vive hoje sob pressão do novo coronavírus no Ceará. Na linha de frente do combate à doença, profissionais de saúde como médicos, enfermeiros e fisioterapeutas também correm risco de ter disponibilidade ameaçada por uma provável disseminação em massa no Estado. Diante da crise, lideranças das categorias defendem pressa e qualificação urgente para fortalecer fileiras de combate à pandemia.

"Em situação de normalidade já não estão sobrando médicos, imagina em uma crise como essa", afirma o presidente do Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec), Helvécio Feitosa. "Para se ter ideia, hoje não temos intensivistas, que são os médicos especializados no atendimento de UTIs, para cobrir nem as necessidades da normalidade". Atualmente, o Ceará tem cerca de 14 mil médicos ativos, 9 mil fisioterapeutas e 76 mil profissionais de enfermagem.

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Para reduzir a deficiência de profissionais, o governo federal editou duas principais medidas. Primeiro, portaria do Ministério da Educação (MEC) do final de março liberou a antecipação da formatura de estudantes de cursos da saúde para atuação na crise. A segunda, do Ministério da Saúde, criou a ação "O Brasil Conta Comigo", que busca cadastrar profissionais de 14 categorias para capacitação de enfrentamento à pandemia. Segundo a pasta, capacidade do sistema de saúde para atender pacientes da Covid-19 será esgotado ainda em abril.

Inicialmente, o cadastro causou controvérsia porque, ao anunciar a medida, o ministro Henrique Mandetta sugeriu que se trataria de uma "convocação" de profissionais para a crise. Depois, a pasta recuou e passou a chamar a ação como um "voluntariado". A ideia, segundo o decreto, é capacitar os agentes para que eles atuem como consultores na mobilização contra a Covid-19 e, apenas em caso de extrema necessidade, atendam diretamente pacientes.

Com a mudança de tom, a ação ganhou maior adesão das categorias. "Estamos vivendo um momento em que foi decretado calamidade em vários estados, inclusive o Ceará. Isso é sem precedente na história. Nossa geração nem a anterior viveram isso, fora em tempos de guerra. Eu, como profissional, quero me cadastrar para ajudar. Creio que os profissionais entendem que isso é importante", diz Edmar Fernandes, presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará.

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Edmar destaca ainda que, no decreto, não há qualquer previsão de obrigação ou punição para os profissionais cadastrados. "Está havendo um grande esforço de formação e capacitação de médicos e profissionais. Logicamente não é a condição ideal, porque um curso de intensivista duraria normalmente três anos", reforça Helvécio Feitosa.

Presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do Ceará, o fisioterapeuta Ricardo Lotif estima que, atualmente, cerca de 40% da categoria esteja diretamente envolvida no combate ao novo coronavírus. Ele afirma que a portaria do MS é "importante" para o atual momento, mas se diz preocupado com pontos como a possibilidade de convocação de recém-formados. "Não somos contra, mas é preciso esclarecer isso", diz.

"O último ano do curso é o momento que o estudante está no hospital. Se ele sai antes, não vai ter um bom desempenho para atender. Como será esse treinamento, com que tempo?". Como a fisioterapia respiratória é fundamental no tratamento da Covid-19, a expectativa do MS é ter pelo menos um profissional para cada 10 leitos de UTI. "Agora, o tempo é o nosso maior inimigo. Se um bom treinamento leva no mínimo 15 dias, era para ter começado ontem".

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), por sua vez, expediu resolução recomendando que todos os profissionais da categoria se cadastrem no programa do governo. "Considerando a importância da equipe de Enfermagem no combate à pandemia e a necessidade de somarmos esforços com as autoridades de saúde pública", justificou na nota o presidente do Cofen, Manoel Neri.

 

Ceará é terceiro com maior incidência de casos, atrás do Distrito Federal e São Paulo

Com 6,8 casos confirmados do novo coronavírus por 100 mil habitantes, o Ceará é o terceiro estado do País com a maior taxa de incidência. O índice nacional é de 4,3 diagnósticos positivos para a Covid-19 por 100 mil habitantes. A informação foi divulgada na noite de ontem, 3, pelo Ministério da Saúde (MS) em transmissão nas redes sociais. Distrito Federal é o primeiro da lista, com taxa de 13,2. Seguido de São Paulo — que lidera o número de casos absolutos, mas também é a unidade federativa mais populosa do País —, com índice de 8,7.

Rio de Janeiro e Amazonas, ambos com incidência de 6,2 por 100 mil completam a lista dos cinco estados com situação mais preocupante, conforme João Gabbardo, secretário-executivo do ministério.

Conforme atualização da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), o Ceará soma 654 casos confirmados e 22 óbitos. Fortaleza concentra 600 pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Aquiraz aparece como a segunda cidade cearense com mais casos, com 15 pacientes com a doença. Doze pacientes constam na plataforma de dados do IntegraSUS como casos confirmados "sem informações". Sobral consta com cinco diagnósticos de Covid-19 e Caucaia com quatro. Icó, Maracanaú, Maranguape e Quixadá têm duas confirmações cada.

Itapipoca, Jaguaribe, Tianguá, Beberibe, Caucaia, Eusébio, Itaitinga, Juazeiro do Norte, Mauriti e Santa Quitéria têm um caso cada. Canindé, Farias Brito, Fortim, Ipaporanga e Itapajé também com um caso cada, entraram na lista de confirmações ontem.

Nas últimas 24 horas, um óbito foi registrado no Ceará. Situação diferente do boletim anterior, quando o número de mortes subiu de nove para 21 entre quarta-feira, 1º, e quinta-feira, 2. A última morte em decorrência do novo coronavírus foi na cidade de Farias Brito. Portanto, a primeira na região do Cariri. A vítima foi uma mulher de 62 anos. Ela morreu na última terça-feira, 31, no Hospital Regional do Cariri, em Juazeiro do Norte, mas o resultado do exame que detectou o coronavírus foi divulgado já no fim da manhã de ontem pelo Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) do Ceará. A taxa de letalidade no Estado é de 3,34%. No Nordeste, o índice é de 3,7% e no Brasil, de 4%.

Dos 654 diagnósticos positivos, 384 (58,7%) são de pessoas entre 20 e 49 anos. Do total, 182 (27,8%) têm de 50 a 69 anos e 54 (8%) têm 70 ou mais — ambas faixas consideradas de risco da doença. Doze resultados positivos são de crianças de até nove anos e nove casos são entre 10 e 19 anos.

O número de casos confirmados de coronavírus no Brasil chegou a 9.056. São 359 casos e 60 mortes registradas em 24 horas. (Ana Rute Ramires)

 

Profissionais alertam para falta de equipamentos de proteção

Apesar de verem com bons olhos iniciativa de maior treinamento de profissionais para o confronto da pandemia de Covid-19, lideranças de categorias da saúde no Ceará destacam preocupação com falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para os profissionais.

“A falta de equipamentos é de certa forma esperada, porque é exigido um volume muito grandes, sem precedentes. E isso é o que a gente vem vendo no mundo todo, não só no Brasil”, diz Edmar Fernandes, presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará. Ele destaca estimativa de que de 12% a 20% de todos os infectados são profissionais de saúde.

Desde o início da crise, em 18 de março, o sindicato já vem solicitando reforço de equipamentos ao Governo do Estado. “Isso não é só para preservar a saúde dos profissionais e de suas famílias, mas também para não prejudicar os atendimentos. Se eu ficar doente, não vou poder ajudar”, afirma,

“Muitos médicos estão adoecendo muito, principalmente porque estão trabalhando em condições inadequadas. Não só no Ceará ou no Brasil, mas no mundo todo, faltam equipamentos. E isso tende a se agravar, porque a demanda é grande demais e esses números só tendem a crescer”, diz Helvecio Feitosa, presidente do Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec).

Entre os EPIs mais necessários para a crise, estão as máscaras anticontágio n95, além de toucas, aventais, máscaras de proteção facial, entre outros. Nas últimas semanas, o governo do Ceará tem anunciado uma série de medidas no sentido de ampliar a aquisição de equipamentos de segurança para médicos, incluindo 350 mil kits de testagem rápida.

“Você precisa ter esse cuidado permanente, até porque um soldado desarmado, ou até armado inadequadamente, não vai poder combater de forma plena”, avalia.

Categorias convocadas para o cadastro do Ministério da Saúde

I - serviço social;

II - biologia;

III - biomedicina;

IV - educação física;

V - enfermagem;

VI - farmácia;

VII - fisioterapia e terapia ocupacional;

VIII - fonoaudiologia;

IX - medicina;

X - medicina veterinária;

XI - nutrição;

XII - odontologia;

XIII - psicologia; e

XIV - técnicos em radiologia.


Fonte: O Povo

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