21 de fevereiro de 2020 às 10h12m
Quem é mais forte contra Trump?

Um radical como Sanders e Warren ou um moderado como Bloomberg e Biden? Duas teorias chegam a conclusões opostas sobre o candidato ideal para o Partido Democrata

O debate democrata da última quarta-feira, em Las Vegas, foi marcado não apenas pela agressividade e virulência incomum com que os pré-candidatos se atacaram, mas também por uma questão de fundo que dilacera os eleitores do partido: quem tem mais chance de derrotar Donald Trump nas urnas?

O estreante Michael Bloomberg afirmou que jamais os americanos votariam num “comunista” como Bernie Sanders (que se declara não “comunista”, mas “socialista democrático”). A senadora Elizabeth Warren declarou que os democratas não deveriam escolher um bilionário como Bloomberg, cujos segredos ainda não revelados poderiam resultar em escândalos que destruíssem sua candidatura.

Uma palavra se tornou frequente nas discussões e análises para definir a chance de alguém ser eleito na disputa contra Trump: “elegibilidade”. De um lado, há aqueles que apostam num discurso mais agressivo, num candidato com o perfil de Sanders ou Warren, para convencer mais gente a votar e ampliar a chance do partido.

Do outro, há quem diga que as chances de convencer os indecisos nos estados críticos que deram vitória a Trump – Wisconsin, Michigan e Pensilvânia – ou os eleitores que votaram em Obama em 2012, mas preferiram Trump em 2016, serão maiores caso o partido escolha um moderado como Bloomberg, o ex-vice Joe Biden, a senadora Amy Klobuchar ou o prefeito Pete Buttigieg.

 

Quem tem razão? O debate eleitoral trouxe à tona uma questão que tem despertado uma discussão menos acalorada, mas bem mais substantiva, entre os cientistas políticos. Duas correntes analisam a disputa política e chegam a conclusões antagônicas, com base nos mesmos fatos e números. Só uma delas poderá estar certa.

A primeira, que poderia ser considerada o mainstream, tem seu maior representante no cientista político Ruy Teixeira, do Center for American Progress. Ela poderia ser chamada de corrente do “eleitor indeciso” (“swing voter”). Apoia-se em dados demográficos para inferir que a vitória dependerá de um grupo específico de eleitores – brancos sem nível universitário – em seis estados do Meio-Oeste (Iowa, Michigan, Minnesota, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin).

É nesses estados que se encontram aqueles que votaram em Obama em 2012 e deram a vitória a Trump em 2016. O principal desafio da campanha democrata, segundo tal corrente, será atrair tais eleitores de volta ao partido. Como evidência, Teixeira apresenta o resultado das eleições de meio de mandato em 2018, quando candidatos com programa menos radical tiveram mais sucesso nas disputas pela Câmara e pelo Senado que os de perfil mais sanderista.

A segunda corrente enxerga o resultado de 2018 sob outro ângulo. Sua principal representante, a cientista política Rachel Bitecofer, era uma voz solitária quando previu que os democratas recuperariam a Câmara com uma margem de 42 deputados – no final, o resultado foi 40. Em sua previsão de julho passado, ela afirma que qualquer candidato democrata derrotará Trump e que isso independe da capacidade de convencer “moderados” ou “centristas” nos estados críticos.

Tal eleitorado, diz ela ao Politico, não passa de 7% e não tem a capacidade de decisão que muitos lhe atribuem. O que acabará decidindo a eleição, afirma, não é a capacidade de convencer os indecisos, mas a de levar às urnas aqueles que já têm lado e sabem em quem vão votar – para os democratas, grupos demográficos como negros, hispânicos ou mulheres dos subúrbios; para os republicanos, o eleitorado rural e os tais brancos sem nível superior. Para isso, carisma e um discurso agressivo como os de Sanders ou Trump poderão são mais eficazes que posições tidas como “moderadas”

 

“O eleitorado democrata complacente das eleições legislativas de 2010 e 2014 e das presidenciais de 2016 se foi (por enquanto)”, escreveu Bitecofer em análise no New York Times. “Foi substituído por um eleitorado galvanizado que produzirá para os democratas a mesma vantagem estrutural que se manifestou em 2018.” A análise dela vê a polarização e o discurso mais radical de Sanders como um ativo democrata, por estimular o comparecimento de jovens, negros, mulheres, hispânicos e outros grupos que não se abalariam em sair de casa para votar num candidato mais chocho.

A mesma lógica, contudo, serve também para Trump. Teixeira cita um estudo e uma análise para afirmar que, assim como estimula o comparecimento de um lado, a polarização também atrai eleitores do outro. “Se a eleição de 2020 tiver mesmo alto comparecimento, como tantos analistas esperam, esse pico poderá incluir muitos brancos sem nível superior, além de grupos tradicionalmente democratas, como jovens e não-brancos. O resultado poderá ser o aumento na votação total nos democratas – mas outra derrota no Colégio Eleitoral.”

Teixeira, co-autor do clássico The emerging democratic majority – onde previa que, com o tempo, a diversidade demográfica americana traria por gravidade e forma duradoura o poder aos democratas –, publicou em outubro uma análise detalhada dos números e continua a apostar na chance do partido. Mas discorda da tese que atribiu ao comparecimento o papel-chave na eleição.

“Os resultados de 2018 não sustentam as teorias de Sanders”, escreveu no Washington Post. “Mesmo se o comparecimento dos negros em 2016 tivesse alcançado o nîvel de 2012 (caiu de 62% para 57%), Hillary Clinton teria perdido. Se, ao contrário, ela tivesse conseguido reduzir suas perdas entre brancos sem nível superior por um quarto de ponto, seria presidente. É uma questão de persuasão, não comparecimento.”

Quem está certo, Bitecofer ou Teixeira? Saberemos na noite de 3 de novembro.


Fonte: g1.com

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