16 de outubro de 2019 às 06h34m
Equador dá início a diálogo em meio a incertezas no país

O Equador viveu um dia de expectativa pelo início do diálogo entre os manifestantes que protestam há 11 dias e o governo de Lenín Moreno.

As duas partes começaram a conversar no fim da tarde (início da noite no Brasil), num local nas redondezas de Quito. Com a cidade militarizada, o acesso à reunião estava restrito, sem permissão de participação da imprensa. As manifestações começaram depois que o governo anunciou a retirada de um subsídio aos combustíveis, como parte de um pacote de ajustes para cumprir metas acertadas com o FMI (Fundo Monetário Internacional). O Equador pediu ao fundo empréstimo de US$ 4,2 bilhões.


Para os indígenas, a derrubada do decreto que retira o benefício era item essencial para seguir conversando. O governo primeiro disse que não o anularia e ofereceu outras medidas para amenizar os efeitos do aumento. Depois, diante da violência dos atos, afirmou que “poderia rever” partes do decreto. No início das conversas deste domingo, Moreno afirmou que “os mais ricos e os traficantes de gasolina” eram os que mais se beneficiavam do subsídio aos combustíveis. “Se isso também está afetando os mais humildes, temos que dialogar. Mas não é justo que esses grupos poderosos fiquem ainda mais poderosos com o subsidio”, disse.

 

Representando os manifestantes, Jaime Vargas, presidente da Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador) declarou que “foram violados direitos humanos e artigos da Constituição”. “Pedimos que isso seja incluído nessa discussão.” A reunião ainda não havia terminado até a conclusão desta edição.

Alerta
O começo do dia em Quito foi de cidade deserta, devido ao toque de recolher imposto na véspera e à presença militar na capital equatoriana. Nas áreas nobres, as pistas das avenidas pareciam as de um filme de ficção científica no qual a humanidade tivesse desaparecido. Nos bairros mais pobres e no centro, onde os confrontos da última semana vêm ocorrendo, via-se apenas a fumaça das barricadas do dia anterior, algumas ainda com fogo, e os sinais dos enfrentamentos mais recentes: pedras, pedaços de pau, restos de comida dos acampamentos e lixo revirado.


O toque de recolher está em vigência desde às 15 horas de sábado. Em princípio vigoraria até as 15 horas de domingo; depois, foi estendido até as 5 horas dessa segunda. Mesmo assim, alguns grupos continuaram nas ruas e houve confusão, com o incêndio de um veículo da polícia, sem mortos ou feridos, e distúrbios registrados nos arredores de Quito, como nos municípios de Tumbaco e Cumbayá, em que casas e comércio foram atacados por grupos de encapuzados.


Segundo a Defensoria do Povo, o número de mortos na repressão subiu para 7, todos manifestantes. O governo contesta duas dessas mortes, dizendo que foram acidentais, e não provocadas pelas forças de segurança. No domingo, as estradas para entrar na cidade ou sair dela estavam fechadas, e era necessário obter uma permissão para atravessar os bloqueios montados pelos militares. Todos os voos internacionais foram cancelados, e turistas tiveram que prolongar sua estada nos hotéis.
“Conseguimos o salvo-conduto para treinar hoje, mas não sabemos se vamos poder jogar amanhã”, disse à Folha Karina Entín, do time Deportivo Medellín, que está no Equador para disputar a Copa Libertadores feminina. O torneio teve uma partida adiada.


Algumas pessoas se aventuravam a passear pelos parques ou ir a cafés. “Eu vou correr, não fazer a revolução, então duvido que a polícia me pare”, disse o obstinado Enrik, 43, saindo com boné, shorts e fone de ouvido, no bairro de Pichincha. “Não podem fazer toda a população de refém”. Após o início da reunião, houve alguns grupos que tentaram avançar até a Assembleia Nacional. Como nos dias anteriores, foram impedidos pela polícia.


Fonte: O Estado

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