09 de outubro de 2019 às 18h29m
Salles diz que, 'acidental ou não', óleo derramado no litoral é 'muito provavelmente' da Venezuela

Segundo ministro do Meio Ambiente, 'tudo indica' que produto veio de navio estrangeiro. Relatório da Petrobras apontou que manchas nas praias são mistura de óleos da Venezuela.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse nesta quarta-feira (9) que o óleo derramado em praias do Nordeste é de origem, "muito provavelmente, da Venezuela", atribuindo a informação a relatório elaborado pela Petrobras.

Um laboratório da estatal analisou 23 amostras do resíduo recolhido no litoral. Os técnicos compararam as moléculas com o material produzido pelo Brasil. Segundo relatório, o óleo encontrado não é produzido, comercializado e nem transportado pela estatal, mas uma mistura de óleos venezuelanos.

Segundo o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, ainda não é possível dizer de onde o óleo veio. Segundo Castello Branco, há três hipóteses: um navio afundado, um acidente durante a passagem de óleo de um navio para outro ou despejo criminoso.

"Esse petróleo que está vindo, muito provavelmente da Venezuela como disse o estudo da Petrobras, é um petróleo que veio de um navio estrangeiro, ao que tudo indica, navegando próximo à costa brasileira, com derramamento acidental ou não, e que nós estamos tendo uma enorme dificuldade de conter", disse o ministro durante audiência pública na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados.

Ainda que um suposto navio tenha derramado o óleo, essa embarcação não é necessariamente venezuelana. Pode ser um navio com bandeira de outro país transportando petróleo venezuelano.

 

A participação do ministro se deu em meio à contaminação de praias do Nordeste por manchas de petróleo. Desde setembro, pelo menos 138 locais em 62 municípios de 9 estados foram atingidos – Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.

O ministro foi convidado pelo colegiado para prestar esclarecimentos sobre o desmatamento da floresta amazônica.

Inicialmente, o requerimento, de autoria do deputado Chico D'Angelo (PDT-RJ), era para uma convocação – o que obrigaria Salles a comparecer – mas foi convertido em convite ao ser aprovado pelos parlamentares.

A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS), que também assinou o requerimento de convite ao ministro, foi uma das parlamentares que questionou o ministro sobre medidas do governo para conter o vazamento.

“Poderia lhe perguntar, e acho que é muito importante, as medidas emergenciais diante desse vazamento de óleo que já atinge 138 pontos em 9 estados do Brasil. Mas eu não tenho ilusão com as suas respostas”, disse. “Sério, ministro, eu lhe peço por escrito. Tanto o plano de combate ao desmatamento quanto ao plano emergencial agora para conter esses vazamentos.”

Salles afirmou que o Ibama e o ICMBio estão "trabalhando incessantemente desde o dia 2 de setembro". Segundo ele, foram mais de 110 horas de voo de avião com sensoriamento remoto do Ibama desde o início do acidente, além de 80 horas de voo de helicóptero para reconhecimento aéreo.

 

O ministro também afirmou que já foram recolhidas 100 toneladas de óleo por essas equipes.

Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro não quis comentar o estudo da Petrobras quando questionado por jornalistas nesta quarta (9).

"A Petrobras disse, perguntem para o [Roberto] Castello Branco [presidente da Petrobrás]", disse a jornalistas, na saída do Palácio da Alvorada.

O presidente já havia dito, nesta terça-feira, que investigadores já consideram um país onde o óleo foi extraído, mas não citou qual seria. Bolsonaro disse que "não poderia acusar um país".

Abrolhos

O ministro foi questionado pelo deputado federal Julio Delgado (PSB-MG) sobre o leilão de sete blocos marítimos que ficam no litoral da Bahia, marcado para esta quinta-feira (10). O parlamentar alega que isso poderia causar danos ambientais ao Parque Nacional Marinho de Abrolhos.

"Vai ter plataforma de petróleo muito nas proximidades de Abrolhos. E não vai ser um óleo cru que vai derramar de navio, não. Se tiver um vazamento lá, acabou a maior reserva ambiental do Atlântico Sul", disse o deputado, cobrando medidas do governo.

Delgado citou decisão da Justiça Federal da Bahia desta terça-feira (8) para permitir o leilão desta quinta-feira, mas deixá-lo sub judice. Lembrou, também, de autorização do Ibama para a exploração de petróleo na área, apesar de recomendação contrária de técnicos do órgão.

 

"No começo do ano, foi de vocês o cancelamento de uma nota do Ibama que receitava que não teríamos a exploração de petróleo na região de Abrolhos."

Em ação civil pública movida contra o leilão, o Ministério Público Federal (MPF) alega que o presidente do Ibama liberou leilão das áreas mesmo depois que técnicos do órgão emitiram parecer dizendo que, em caso de acidente com derramamento de óleo, os impactos podem atingir todo o litoral sul da Bahia e a costa do Espírito Santo.

Ao responder o deputado, Salles disse que o incidente do óleo cru no litoral do Nordeste "importância, justamente, de um licenciamento, de um modelo, e de um sistema que seja de contenção de danos bastante eficiente".

"O que foi subscrito pela presidência do Ibama não foi autorizar operações, foi simplesmente dizer que quando do licenciamento, e nesse aspecto temos total coincidência de visão [com o Ibama], quando do licenciamento dessas áreas é que se deverá obedecer com o total rigor, e essa demonstração do litoral que estamos vendo, temos total, a visão nossa é absolutamente coincidente quanto a isso", disse.

Manifestantes do movimento Abrolhos Sem Petróleo compareceram à audiência, com placas em defesa do parque marinho.

Protesto

Antes do início da sessão, um jovem manifestante entregou ao ministro o que chamou de "prêmio Exterminador do Futuro" – um boneco, vestido de terno e gravata que segurava uma placa com o nome de Salles.

"Ministro, eu queria fazer uma entrega para você, ministro. Esse prêmio aqui. É o prêmio Exterminador do Futuro para o ministro Salles", disse o manifestante, antes de ser retirado por seguranças.

Ele chegou a entregar o boneco nas mãos do ministro, que já ocupava a mesa da comissão.

A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) chegou a pedir "calma" aos seguranças. "Calma, calma, calma, ele está só entregando um prêmio".

 

Durante a sessão, Salles não comentou o protesto.


Fonte: g1.com

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