28 de maio de 2019 às 11h17m
Quem venceu a eleição europeia?

É preciso manter um pouco de ceticismo sobre o avanço eurocético no Parlamento europeu

Os partidos eurocéticos no Parlamento Europeu cresceram de 145 para pelo menos 184 das 751 cadeiras nas eleições encerradas no domingo. Foi sem dúvida uma vitória das forças contrárias à União Europeia (UE). Mas é importante entender a natureza dessa vitória para não superestimá-la.

A primeira e mais importante ressalva a fazer é que, mesmo contando com a adesão de eventuais deputados espalhados por outros blocos parlamentares, a visão eurocética está longe da maioria. Os blocos europeístas somam ao menos 504 parlamentares, o suficiente para constituir coalizões em diversos formatos.

Uma segunda ressalva essencial está no programa defendido pelos recém-eleitos. Praticamente inexiste a proposta de cisão da UE, que animou os eurocéticos logo depois do plebiscito do Brexit. Em 2016, havia pelo menos 15 iniciativas de plebiscitos semelhantes ao do Reino Unido entre os demais 27 países da união. Hoje, nenhuma.

Prevaleceu a ideia defendida pelo vice-premiê italiano Matteo Salvini, principal artífice do novo programa eurocético (e um dos maiores vitoriosos no último domingo). Em vez da ruptura dos tratados da UE, Salvini almeja o que chama de “união de bom senso”, dedicada a projetos comuns nas áreas de segurança e imigração.

Para ele, decisões econômicas deveriam ficar a cargo dos países individualmente. A noção de que a Itália deveria sair do euro foi abandonada tanto por Salvini quanto pelos seus aliados do Movimento Cinco Estrelas (M5E). A mesma visão é compartilhada por partidos como a Reunião Nacional, da francesa Marine Le Pen.

Uma terceira ressalva esta na qualidade e na extensão do crescimento dos eurocéticos. Eles estão divididos em três grupos parlamentares distintos, cujas características nem sempre correspondem ao estereótipo nacionalista, populista e de extrema-direita. Fora deles, há deputados eurocéticos à esquerda e mesmo dentro do maior bloco do Parlamento, de centro-direita (caso dos 13 parlamentares do Fidesz, do húngaro Viktor Orbán, de filiação ainda incerta depois da eleição).

Apesar de compartilhar uma visão majoritariamente contrária aos princípios de maior integração e fronteiras abertas, não há unidade entre os 27 partidos colocados no mesmo balaio. Conquistaram um saldo de 26 cadeiras sobre as 145 que tinham, mas o resultado não foi uniforme. Entre os 27, 12 sofreram perdas. A maioria se manteve no mesmo patamar conquistado na eleição de 2014.

A maior vitória foi na Itália, onde a Liga, de Salvini, cresceu de 5 para 28 cadeiras. No Reino Unido, obrigado a realizar eleições enquanto está na UE, o Partido do Brexit, de Nigel Farage, saiu vitorioso com 29 cadeiras. Não foi, porém, um crescimento excepcional, levando em conta que o Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), do mesmo Farage, vencera com 24 em 2014.

Praticamente todo o crescimento dos eurocéticos (23 das 26 cadeiras) pode ser atribuído à vitória espetacular de Salvini na Itália. Na França, mesmo tendo derrotado a coalizão do presidente Emmanuel Macron por menos de um ponto percentual, o partido de Marine Le Pen perderá uma cadeira se os resultados se mantiverem até o final da apuração.

Comparado ao crescimento dos Verdes (de 50 para 69 cadeiras) e dos liberais (de 67 para 109), o dos eurocéticos se torna apenas mais uma consequência da verdadeira notícia das eleições: o encolhimento dos blocos de centro-esquerda e centro-direita que dominam o Parlamento desde a primeira eleição, em 1979. Será um Parlamento mais fragmentado, não necessariamente mais eurocético.

A onda nacional-populista, é importante enfatizar, não arrefeceu. Sobretudo porque eleições europeias têm implicações locais. Na Áustria, o premiê Sebastian Kurz caiu em virtude de um escândalo que atingiu os parceiros de extrema-direita em sua coalizão. Teve de convocar novas eleições. Na Itália, Salvini pensa em fazer o mesmo para ampliar seu poder diante dos parceiros do M5E. Hungria e Polônia continuam sob o domínio seguro dos nacional-populistas.

O resultado mais surpreendente nas eleições europeias não foi o crescimento dos eurocéticos e nacionalistas – isso era esperado. Foram o ressurgimento liberal, a ascensão dos verdes e a configuração mais plural (e provavelmente mais conflituosa) do Parlamento.

Criado para contrabalançar o poder dos eurocratas, em vez de apenas carimbar as decisões tomadas em gabinetes de Bruxelas, o Parlamento sediado em Estrasburgo tende a adquirir maior vulto e relevância em áreas que vão do meio ambiente à regulação digital. É lá que as populações nacionais são representadas democraticamente, é lá que emerge o sentimento europeu.


Fonte: g1.com

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