09 de outubro de 2018 às 12h03m
Em entrevista, Camilo diz que agora ‘Haddad é Brasil’, pede foco fora de Lula e autocrítica do PT

Governador reeleito do Ceará neste domingo, 7, com quase 80% dos votos válidos, Camilo (PT) defendeu, em entrevista ao Portal Uol Notícias nessa segunda-feira, 8, que seu partido faça uma autocrítica e mude o foco da campanha no segundo turno das eleições presidenciais.


Para Camilo, a campanha deve se concentrar menos no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, originalmente o presidenciável do PT, e mais na pessoa e no histórico do candidato Fernando Haddad. O ex-prefeito de São Paulo enfrentará Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que ficou com 46,03% dos votos válidos contra 29,28% do petista, nas urnas em 28 de outubro. Ciro Gomes (PDT-CE), que assim como Haddad também é apoiado por Camilo, ficou em terceiro lugar com 12,47%. Em seu pronunciamento de derrota, Ciro chegou a comemorar a vitória do governador petista.

No Palácio da Abolição, sede do Executivo estadual cearense, Camilo Santana falou ainda sobre os desafios para os próximos quatro anos à frente do Governo, a surpresa de não ver o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB), reeleito e de como o PT deve se posicionar nas próximas semanas na disputa pelo Palácio do Planalto.

Ele disse também contar com uma união de centro-esquerda em torno da candidatura de Fernando Haddad. “Há um tensionamento muito forte no Brasil nesse momento. O Brasil não aguenta ficar mais quatro anos nessa situação que está aí, não. Precisamos virar a página e não tenho dúvida de que o caminho é com o Haddad”, disse ele.

Confira a entrevista de Camilo na íntegra:

O senhor e outros cinco governadores aqui no Nordeste ligados à esquerda e à centro-esquerda foram reeleitos já no primeiro turno. O senhor com uma vitória convincente (79,95%). A que o senhor atribui essa vitória?

Acredito que foi o reconhecimento da população, tanto que uma das coisas que mais gosto de avaliar nas pesquisas internas nossas é a avaliação do governo. Se as pessoas estão gostando, aprovando ou não. Tivemos um período difícil com a crise econômica, política, a crise da seca no Ceará, mas foi um governo que deu muitas respostas à população. O governo que investiu mais no Brasil foi o Ceará. Um governo bem equilibrado, com seus salários em dia, com concursos públicos, com investimentos em novas escolas, novas estradas. Foi o estado que mais gerou emprego nos últimos 12 meses no Nordeste. Mesmo com o problema da segurança, eu media muito isso, a população sabe que não é um problema só local, é nacional, mas enxergava o governo trabalhando. Também não enxergou nos outros candidatos algo que pudesse apresentar um novo caminho para o Ceará. A minha responsabilidade aumenta ainda mais diante desse resultado.

Quais os maiores desafios para o senhor nesses próximos quatro anos?

Um estado como o nosso, primeiro, precisa de crescer, né? A economia tem de estar bem. Esse desafio de gerar emprego. Fizemos uma estratégia importante aqui, diante dessa crise brasileira, de buscar parcerias internacionais. Depois, o desafio da segurança que tenho um desejo, uma obstinação, de fazer do Ceará nesses próximos quatro anos um exemplo, como fizemos na educação, apesar de muita coisa não depender da gente. A legislação é nacional, o crime ultrapassou as fronteiras dos estados, ter o sistema único de segurança, mas, do que depender de nós, vamos fazer do Ceará um exemplo. O problema da água, graças a Deus, tudo indica que vamos resolver agora com a transposição do Rio São Francisco sendo concluída. Nos dá uma tranquilidade. No resto do Brasil, a gente viu uma onda de conservadorismo.

No Nordeste, os governadores mais ligados ao PT e ao PCdoB conseguiram se reeleger. Por quê?

Primeiro vejo que cada governo tem certo perfil. Todos esses governadores tiveram reconhecimento do trabalho da população. Uns mais, outros menos. Agora, diante do resultado do Haddad que ganhou em praticamente todos os estados no Nordeste, menos aqui no Ceará, que foi o Ciro, aí é reflexo dos resultados do governo do ex-presidente Lula, que teve um efeito muito forte no Nordeste. Foi o presidente que olhou para o Nordeste.

O senhor se aliou informalmente ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, uma das figuras mais importantes do MDB nos últimos anos, no governo Michel Temer e no Ceará. Ele não se reelegeu. O que o prejudicou?

Eu ainda estou tentando hoje entender o que aconteceu, porque, para mim, foi uma surpresa. Todas as pesquisas apontavam que ele iria se eleger. Claro que teve uma coisa muito forte para o Nordeste, que foi a questão dos golpistas [defensores do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, do PT], né? Houve uma reação. Teve esse efeito, mas a margem da vantagem do Eunício era tão grande que não acreditava em nenhum risco. Para mim foi uma surpresa que ainda merece um certo estudo. Uma análise para detectar o motivo real.

O senhor dividiu o palanque com Ciro Gomes e Fernando Haddad. Integrantes do PDT achavam que governadores no Nordeste, como Paulo Câmara (PSB-PE), Flávio Dino (PCdoB-MA), fossem migrar de Haddad para Ciro quando Lula fosse declarado inelegível. Não aconteceu. Dividiram o palanque. Acha que não ter o apoio dos governadores, no geral, prejudicou a campanha do Ciro?

Claro que prejudicou. O Ciro é muito inteligente, preparado, tinha um perfil importante porque podia aglutinar várias forças, tendências no Brasil. Aquela discussão no início antes da homologação [das coligações] dos vários partidos prejudicou a campanha dele. Não teve [muita] aliança, teve pouco tempo de televisão, dificultou ser mais conhecido. Para mim, foi um privilégio ter os dois [Ciro e Haddad]. Em respeito ao eleitor, aos partidos, às lideranças, deixamos livres os dois nomes. Tanto que aqui foi o único estado em que o Bolsonaro ficou em terceiro. Acho que a não vinda do PSB, a não definição de alguns governadores que tinham a tendência muito forte ao Ciro prejudicou um pouco, porque o perfil do eleitoral nordestino também tinha uma tendência muito forte ao Ciro

O senhor aceitaria uma aliança do PT com o PDT com a incorporação de programas do Ciro?

Claro. Acho que não deve ser só o PDT não. Deve ser o PT, PDT, PSDB. Chamar os partidos todos. Progressistas, de centro-esquerda, de centro-direita para buscar uma chance para o Brasil. Não tenho nem dúvida de que o perfil é o Haddad. Pessoa de perfil de diálogo, tranquila, professor, foi ministro da Educação, prefeito. Tem todo um perfil de aglutinar. E tem que estar acima do PT. Tem de fazer um gesto que é a hora de unir várias forças, tendências, correntes no Brasil. Não retroceder, mas corrigir distorções, erros e superar. Dar essa sinalização. Há um tensionamento muito forte no Brasil nesse momento. O Brasil não aguenta ficar mais quatro anos nessa situação que está aí não. Precisamos virar a página e não tenho dúvida de que o caminho é com o Haddad.

Como esse segundo turno presidencial vai ser difícil, o senhor acha que o PT deve fazer uma autocrítica? Se sim, em quais aspectos?

Sim, eu sempre defendi isso. Acho que a autocrítica deve haver e não só do PT. É com qualquer um…eu faço comigo mesmo. Às vezes erra em alguns caminhos, tem de corrigir. Faz parte da vida de todos nós. Nós mesmos fazemos autocríticas da vida da gente, do nosso comportamento. O PT também precisa fazer, porque ninguém é perfeito. Todos nós cometemos erros e o PT cometeu erros.

Quais erros?

Cometeu erros quando se afastou das bases sociais, quando fez alianças com alguns segmentos partidários para garantir a governabilidade. Então, acho que precisa rever um pouco isso. Rever e reconhecer que teve equívocos, erros, que algumas pessoas do partido se desviaram da sua conduta e sinalizar que é preciso construir um novo momento. Porque na população, há uma imagem muito forte de corrupção e tal. Mas, se for analisar, isso cria uma coisa generalizada dos partidos e todos. Então, é preciso virar a página e construir um novo momento de esperança para o Brasil. Só consegue com a participação de todos.

O senhor acha que o Haddad deve de alguma maneira esconder o Lula nas propagandas? Ligar a imagem dele ao Lula é tóxica?

Não, de forma alguma, mas acho que [o Haddad] tem que ser ele. Acho que o Haddad agora tem de se apresentar como ele [próprio]. Mostrar ao Brasil que é uma pessoa de diálogo, tem perfil aglutinador, um professor, uma pessoa que defende a educação, que está disposto a unir o Brasil. Corrigir os erros, superar. Chamar todos para participar, não só na eleição, mas para superar esse problema do Brasil. Acho que tem de se apresentar como ele. Ele, Haddad. O candidato que quer colocar uma possibilidade de futuro para o Brasil. Muito para acima do PT, acho que Haddad é Brasil. Tem de ser agora “Haddad é Brasil”. Deve ser esse o caminho, na minha opinião. Claro que o apoio do Lula foi bem importante. Foi importante, senão não tinha nem chegado no segundo turno. Agora, ele precisa se apresentar como o Haddad do Brasil, que quer construir um novo momento para este país.

Com informações do Portal Uol Notícias


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