04 de setembro de 2018 às 10h50m
Nos últimos três anos, mais seis milhões na extrema pobreza e mais desigualdade

Um estudo feito por Marcelo Neri, ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e atual pesquisador da FGV, divulgado na sexta-feira (31),

Um estudo feito por Marcelo Neri, ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e atual pesquisador da FGV, divulgado na sexta-feira (31), ilustra com dados as cenas que os cidadãos brasileiros, principalmente aqueles que moram em grandes centros, já estão percebendo há muito tempo: seis milhões de pessoas passaram a viver abaixo da linha da pobreza nos últimos três anos no país. Não se via um aumento desses há quase trinta anos. Aqui no Rio de Janeiro, basta uma caminhada rápida pelas ruas do segundo Centro financeiro do país para sentir de perto, bem pertinho, o que, para Neri, é ainda mais preocupante do que a pobreza em si: a desigualdade social.

“A desigualdade brasileira está crescendo há dois anos e três meses. A última vez que isso aconteceu foi em 89, que foi o nosso recorde de desigualdade - e não por coincidência, recorde de inflação . E mais do que isso: é um período em que teve esse forte aumento da concentração de renda, mas também de queda de renda. Porque mesmo em 99, quando o Real desvalorizado, a desigualdade não aumentou. Agora ela aumentou muito e por muito tempo. Na última pesquisa que a gente fez, no segundo trimestre de 2017, ela está começando a querer parar de subir. O próprio crescimento da desigualdade tem dificultado a retomada de crescimento. Entre 1999 e 2003 foi um período de grande crise, mas pensou-se nisso. Agora não estamos pensando em desigualdade. Não é só importante para preservar os mais pobres mas porque eles mantém a roda da economia girando. Deixar o social em último plano dificulta a recuperação da economia. A desigualdade é um adversário não só social, mas econômico também”, diz o professor num vídeo explicativo sobre seu estudo no site da FGV .

As observações de Marcelo Neri corroboram outros estudos sobre desigualdade, como os que são anualmente realizados pela organização Oxfam. No ano passado, por exemplo, a Oxfam concluiu que os seis maiores bilionários do País, juntos, possuíam riqueza equivalente à da metade mais pobre da população. Ao mesmo tempo, o ano começou com mais de 16 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza . E mais: entre os países para os quais existem dados disponíveis, diz o estudo, o Brasil é o que mais concentra renda no 1% mais rico, sustentando o terceiro pior índice de Gini na América Latina e Caribe (atrás somente da Colômbia e de Honduras). Segundo o último Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) o Brasil é o 10º país mais desigual do mundo, num ranking de mais de 140 países.

Escrever sobre desigualdade social num espaço dedicado a atualizar temas que dizem respeito ao desenvolvimento sustentável é trazer à tona uma questão que se baseia em vários estudos e conclui que não se pode esperar um crescimento sadio numa sociedade que não está bem. Ouvi esta reflexão de Zilda Arns - médica sanitarista, fundadora da Pastoral da Criança, morta em 2010 vítima de um terremoto no Haiti - durante uma palestra numa Conferência do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, e dela nunca me esqueci. Porque faz o maior sentido.

A desigualdade aumenta a violência, desacelera o crescimento, aumenta a desconfiança entre as pessoas, criando uma erosão social. E deixa tristes os cidadãos, com hábitos de consumo que não atendem às necessidades reais, mas à vontade de “ter” para se tornar mais incluído como “os outros”.

Postado há cerca de dois anos no site da Oxfam, organização cuja missão tem sido apontar as desigualdades sociais e seus efeitos maléficos em todo o mundo, o artigo da economista Deborah Hardoon fez a relação entre violência e desigualdade, e os dados deixam claro que os fenômenos estão interligados. Já que estamos vivendo um tempo esquisito, em que há (muitas) pessoas apostando em violência e armas para acabar com a violência e os tiroteios, não custa refletir sobre as palavras de Hardoon:

“Ser deixado para trás enquanto outros prosperam pode gerar ressentimento, violência e conflito entre os que não têm e aqueles com dinheiro, poder e influência. Mas também pode criar comunidades desprivilegiadas, frustradas e iradas que usam o crime e a violência dentro de suas próprias comunidades. Em um país rico como os EUA, por exemplo, ser relativamente pobre pode prever sua probabilidade de ser assassinado, cometer suicídio ou experimentar outras formas de violência. As mulheres de baixa renda nos Estados Unidos, por exemplo, são desproporcionalmente vítimas de violência doméstica”, escreve a economista e pesquisadora.

 

Como este espaço aqui do blog também é lugar de se debater sobre meio ambiente, eu lanço uma pergunta, caro leitor: há chances de uma sociedade que está lidando com a desigualdade social em suas entranhas, se sentir capaz e motivada para tentar mudar o cenário de maus tratos a animais e plantas planeta afora? Há chances de se conseguir simpatia dos cidadãos para a limpeza de rios e lagoas quando têm, na frente de casa, um esgoto a céu aberto? Segundo dados do Instituto Trata Brasil, 2,1% da população brasileira, ou seja, cerca de 4,4 milhões de pessoas não têm acesso a nenhum tipo de esgotamento sanitário: vivem em estado de defecação aberta.

Outro dado do relatório da Oxfam do ano passado sobre a desigualdade no Brasil dá conta de que, no caso de cobertura de esgoto, ela abrange 80% dos 5% mais ricos. Mas este importante serviço que deveria ser provido pelo estado a todos os cidadãos com os impostos que arrecada, cai para menos de 25% se observados os 5% mais pobres.

O site das Nações Unidas traz ainda o resultado de um estudo que analisou 29 países — entre desenvolvidos e em desenvolvimento — e mostra que o Brasil está no grupo de cinco nações em que a parcela mais rica da população recebe mais de 15% da renda nacional. O 1% mais rico do Brasil concentra entre 22% e 23% do total da renda do país, nível bem acima da média internacional. Ou seja, estamos os cinco países mais desiguais do mundo.

Volto a dizer que sim, este é um assunto concernente às reflexões possíveis sobre um novo modelo de civilização, que leve em conta pessoas e meio ambiente e lucro (nesta ordem, por favor). Sobretudo quando se está em tempos de escolher políticos. É preciso cobrar, e para isso é preciso ter informações. Este é meu papel.


Fonte: g1.com

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