26 de fevereiro de 2018 às 07h35m
Vazamento em Barcarena expõe a face insustentável do desenvolvimento

“Há 20 anos em operação, a empresa abastece os mercados nacional e internacional. Em média, 14% de sua produção são destinados ao mercado interno e os outros 86% à exportação”.

Copiei o texto acima do site da empresa Hydro Alunorte, que se autointitula “a maior refinaria de alumina do mundo”. Assim como em outras tantas vezes, a Hydro está sendo atualmente acusada de estar colaborando para contaminar diversas áreas do município paraense de Barcarena  por causa do vazamento de barragens de rejeitos de bauxita.

 

Há muito que essa empresa, criada para produzir mais para as pessoas que moram longe daqui, está causando problemas aos brasileiros que moram no entorno de sua usina. Esta desigualdade entre os que entram no território para destruir e tirar dali suas riquezas e aqueles que moram no lugar me remete imediatamente à reportagem recentemente publicada pela BBC e replicada aqui no G1 sobre a situação de pobreza extrema em que se encontram moradores de Papua, vizinhos da maior mina de ouro de que se tem história.

 

A situação não é a mesma que acontece em Barcarena, mas este é um caso que pode ilustrar aquilo que estudiosos já estão cansados de alertar: a destruição de bens naturais serve àqueles que exploram e deixa sequelas muitas vezes irreversíveis aos habitantes do território explorado. E isso não acontece desde agora, mas desde sempre. Convido os leitores a acompanharem com atenção um trecho do excelente livro “A corrida pelo crescimento” (Ed. Contraponto e Centro Internacional Celso Furtado), do indiano Deepak Nayyar,economista e professor emérito da Jawaharlal Nehru University, de Nova Délhi, em que ele sequencia fatos econômicos e sociais da Europa de 1500 a 1780:

 

“A aquisição de colônias associou-se a uma expanção mercantil das trocas. O comércio do Velho Mundo e a prata do Novo Mundo revelaram-se complementos poderosos no estímulo aos fluxos comerciais, na medida em que a Europa custeava suas importações de têxteis, especiarias, porcelanas e sedas da Ásia com exportações de prata obtida nas Américas. O Novo Mundo deu à Europa uma fonte de produtos primários, como açúcar, tabaco, algodão e madeira, sem falar nos inesperados lucros ecológicos do acesso a plantas nativas como o milho e a batata... Os escravos da África proporcionaram a mão de obra para as lavouras de exportação, as minas e a agricultura, enquanto os migrantes europeus forneceram os empresários para o Novo Mundo”.

 

Assim que li, aqui mesmo no G1, a notícia sobre mais um vazamento em Barcarena, lembrei-me também de que enquanto editei o caderno “Razão Social”, suplemento encartado no “O Globo” com debates sobre desenvolvimento (de 2003 a 2012), fiz algumas reportagens exatamente com o mesmo mote. Fundada por um norueguês, a Hydro, que já teve a Vale entre suas parceiras, instigou a visita de uma ONG norueguesa em 2009.Por conta de denúncias constantes de vazamentos e poluição, a organização esteve no Brasil para fazer uma espécie de relatório ao governo da Noruega sobre as atividades da empresa em território brasileiro.

 

Não sei o resultado dessa visita, mas hoje pela manhã conversei, pelo telefone, com Antonio Tadeu Neves Maciel, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barcarena, que confirmou a minha apuração. Sim, já foram feitas várias denúncias contra a empresa, os que se sentiram afetados fizeram manifestações, mas há sempre respostas, discursos prontos, com justificativas para os problemas. Dessa vez, a empresa alega que seu tanque de rejeitos vazou por conta do excesso de chuvas que vem caindo na região há uma semana.

 

“Somos uma gota d´água no oceano. Os vazamentos vêm acontecendo há muito tempo. Os igarapés estão poluídos, ninguém mais pode pescar nem plantar frutas, como fazíamos no passado. O que aconteceu desde que a Hydro se instalou aqui, nos anos 80, é que o município de Barcarena mudou de perfil: éramos uma população rural e agora somos um distrito industrializado. A Vila dos Cabanos, onde o projeto foi instalado, é vista como um local de progresso, mas não é assim”, disse-me ele.

 

Tadeu pôs palavras, trouxe a teoria para a prática. Sim, foi um alvoroço na cidade quando souberam que ali se instalaria uma super empresa, com condições para dar emprego e renda a muita gente. Traria, de fato, o desenvolvimento para a região que, na época, vivia pobremente, embora sem miséria. Havia muitos trabalhadores rurais.

 

“Na verdade, no início teve, sim, muitos empregos, mas isso foi acabando com o tempo, a tecnologia foi deixando muita gente para trás. Usaram as mãos dos homens que não tinham formação para o trabalho pesado na construção, e agora a gente vê muitos trabalhadores sendo importados de outros países. Tem brasileiro trabalhando no projeto, sim, mas são poucos e a maioria exerce cargos de serviços, como vigilantes”, disse Tadeu.

 

Mas a promessa dos empresários funcionou como um canto da sereia e, ainda hoje, muitos trabalhadores que se veem de uma hora para outra sem viração, pegam o barco até Barcarena, em busca de uma chance. Isso só faz aumentar as invasões de terrenos na cidade. O próprio Tadeu tem amigos nesta situação, e se penaliza.

 

“Foi um projeto que veio de cima para baixo, e quando isso acontece os trabalhadores não têm chance de opinar em nada.Acreditamos numa promessa falsa, de progresso, e o que ganhamos foi esta situação que estamos vivendo hoje. Nossas águas estão avermelhadas, poluídas, o laudo do Instituto Evandro Chagas confirmou que estão contaminadas, as autoridades do estado e da prefeitura estão monitorando, pediram que ninguém bebesse água. Isso tudo é muito triste. Nosso município está em dificuldades, e a empresa já fez outra bacia de dejetos do outro lado”, disse Tadeu.

 

O próprio trabalhador, ao final de nossa conversa, lembrou que a empresa, quando ouvida, iria tratar de forma diferente a situação. Para a Hydro, ela, sim, levou empregos e progresso ao local. Talvez justifique os vazamentos e a poluição como erros técnicos, ou coisa assim.

 

Deepak Nayyar, entre outros, ajuda a refletir sobre este tipo de progresso, que se mostra insustentável para quem deveria ser beneficiado. Para que países em processo de desenvolvimento se transformem em sociedades inclusivas, como o economista pensa que pode acontecer, é preciso que o caminho seja construído com mais respeito. Tanto pelo meio ambiente quanto pelas pessoas que nele habitam. 


Fonte: g1.com

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