19 de fevereiro de 2018 às 07h30m
Corte de Trump deve piorar vida de palestinos

Das menores, de seis anos, até as adolescentes, todas as alunas da escola Marj ben Amer sabem a rotina. Assim que escutam o familiar barulho de tiroteio, escondem-se embaixo das mesas.

Depois, seguem a linha verde desenhada no chão, que as conduz até o “safe room”. Trata-se de uma sala com películas especiais nas janelas, para evitar que estilhacem, cercada com muros duplos, para conter as balas.

Pelo alto-falante, são orientadas pela diretora para a saída: não gritem, não voltem para procurar seus irmãos. Todos foram treinados pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Em Ein el Hilweh, o maior campo de refugiados palestinos do Líbano, mais de 20 facções estão em guerra.

Tradicionais organizações palestinas como Hamas e Fatah lutam contra facções de extremistas islâmicos, como o Estado Islâmico, a Jabhat Fatah al-Sham (antiga Jabhat al-Nusra) e a milícia local Jund al-Sham. A escola Marj ben Amer fica bem no meio do fogo cruzado -no ano passado, ficou fechada por 27 dias por confrontos, que acontecem em média uma vez a cada dois meses. Às vezes, atiradores se escondem dentro das salas de aula.

Não raro, usam lançadores de granadas.
Além da violência, a pobreza também é regra no campo. Os palestinos do Líbano são proibidos de exercer quase 40 profissões, entre elas medicina, engenharia e direito. A maioria dos refugiados vive de bicos, trabalha na construção ou fazendo limpeza. Mais de metade depende de ajuda financeira da UNRWA, a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) que atende refugiados palestinos.

Com o conflito sírio, mais 40 mil palestinos que se abrigavam na Síria foram para o Líbano. Em Ein el Hilweh, a população explodiu – hoje, cerca de 80 mil refugiados vivem em apenas 1,5 quilômetro quadrado cercado por um muro, em casas cheias de marcas de balas, semidestruídas por bombas. A densidade demográfica no campo é de 53.333 habitantes por quilômetro quadrado – sete vezes maior que a da cidade de São Paulo.

Segundo Christophe Martin, chefe da delegação do CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) no Líbano, o comitê se inspirou no projeto que implantou em comunidades do Rio de Janeiro para proteger escolas. A diferença é que, no Rio, o problema é o tráfico de drogas. Aqui, a violência é política e religiosa. “Sabemos que é difícil, somos apenas os bombeiros apagando um incêndio aqui.”

Corte de verba
A situação em Ein el Hilweh, que já beirava o insustentável, vai ficar pior. O presidente americano, Donald Trump, acaba de anunciar corte de quase 80% da contribuição que os EUA faziam para a UNRWA. O país destinou US$ 350 milhões para a UNRWA em 2017, um terço do orçamento total da agência. Em 2018, reservou apenas US$ 60 milhões. Um dos motivos para o corte, segundo Trump, é a resistência dos palestinos em negociar um acordo de paz com os israelenses.
Grande parte dos palestinos do Líbano vieram em 1948, quando foram expulsos ou fugiram de seus vilarejos após a criação de Israel, ou são descendentes desses primeiros refugiados. Apesar de estarem há quase 70 anos no Líbano, vivem até hoje como estrangeiros e não podem ter nenhuma propriedade.

“A situação já era bastante difícil no Líbano e ficou ainda mais complicada com a chegada dos palestinos sírios”, diz Martin. Como as opções de emprego são restritas, muitos palestinos trabalham para a UNRWA. “Eu também sou refugiada. Se me demitirem, não posso trabalhar em outro lugar”, diz Nesrin Ayoub, diretora da escola. “O corte de recursos nos afeta duplamente -prejudica os palestinos que trabalham na agência e os que são atendidos por ela.”

Os refugiados não são proibidos de se movimentar, mas o Exército libanês controla a entrada e saída do campo de Ein el Hilweh. Lá dentro, no entanto, é terra sem lei. Seguindo um acordo, forças libanesas não entram nos campos palestinos, que gerem a própria segurança. Homens com metralhadoras circulam em meio a muros com fotos do líder palestino Iasser Arafat (1929-2004).

“No dia do confronto, as crianças até aguentam bem. Mas no dia seguinte, têm ataques de choro, ficam irritadas e brigam por qualquer coisa”, diz Ayoub. No ano passado, foram mortos pais de várias crianças – muitas perderam as casas, chegaram na escola sem livros e sem uniforme. “Vivia uma vida ótima na Síria, a gente tinha nossa casa, eu tinha roupas bonitas. Saí por causa da guerra”, diz Maram.


Fonte: O Estado

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