01 de fevereiro de 2018 às 12h24m
Novos olhares sobre a eterna luta entre defensores e destruidores da Amazônia

O Arco do Desmatamento da Amazônia tem 500 mil km2 de terras que vão do leste e sul do Pará em direção oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre

É o local onde a fronteira agrícola avança em direção à floresta, em que se dão os piores confrontos entre quem protege o verde e quem quer desmatar para garantir sua sobrevivência. Não por acaso, foi chamado de “zona de guerra”, pelo fiscal do ICMBio e chefe da Floresta Nacional de Jamari, em Rondônia, Áquilas Mascarenhas,  em reportagem recente publicada no jornal “Valor Econômico”.

 

Folheando o site do jornal britânico “The Guardian”, eis que me deparo com outro apelido para a região: fronteira sem lei. A reportagem recente, feita pelo editor de meio ambiente do jornal, Jonathan Watts, conta a história do violento assassinato de Sairá Kaápor em abril do ano passado. Embora o caso ainda não tenha sido resolvido pela Justiça, o que se acredita é que o indígena teria enfrentado madeireiros da região, por isso morreu. A reportagem, muito sensata e com informações precisas, vai trazendo o fio do novelo e apontando para uma realidade que passa distante de brasileiros do Sul/Sudeste.

 

“Armados com arcos,  flechas, rastreadores de GPS e armas pesadas, Sairá e outros membros de sua tribo, a Ka´apor, expulsam, às vezes atacam, os madeireiros que tentam entrar em seu território, a Terra Indígena Alto Turiaçu de 530.000 hectares, no Maranhão”.

 

Parece cena de filme, mas não é. Trata-se, segundo Watts, de um “mundo frágil,  perigoso, equilibrado precariamente em valores de conservação e consumo, tradição e modernidade”.  Essa relação tão intensa e frágil é definida de forma extremamente sensível pelo jornalista britânico. E vai deixando no leitor brasileiro uma sensação de impotência diante do quadro absolutamente negligenciado pelos governantes, que Watts lembra serem, muitos deles, “coronéis que possuem uma autoridade quase feudal”.

 

“Nada é preto e branco. Os madeireiros também eram vizinhos. Muitos eram pobres. Houve intercâmbio. As pessoas iriam lutar contra os madeireiros um ano, fazer amizade com eles no próximo e depois voltar a lutar. Mesmo o Sairá já vendeu árvores em sua terra em troca de cachaça e dinheiro, mas mais tarde desistiu de álcool e liderou a campanha para impedir que outros na sua aldeia bebessem e negociassem madeira”, conta o jornalista.

 

O assassinato de Sairá ocorreu na estrada de Betel, pequena aldeia madeireira que tem apenas algumas centenas de casas, uma igreja e um bar. Ele estava sendo ameaçado de morte e, por isso, todas as suspeitas recaem sobre os madeireiros, embora um indígena esteja sendo apontado como possível culpado por conta de uma briga.

 

Em 2014, o indígena se envolveu numa ação contra madeireiros ilegais que foi noticiada mundo afora. Na ocasião, alguns madeireiros foram espancados e amarrados, deixados nus para serem entregues a agentes policiais. A violência, portanto, muitas vezes é de parte a parte.

 

Sairá e sua história ilustram os dados divulgados na reportagem de Joe Leahy e Andres Schipani, do também britânico “Financial Times”, reproduzida pelo “Valor”:

 

“Até 95% do desmatamento na região é ilegal, impulsionado por garimpeiros, pecuaristas e pequenas propriedades rurais irregulares, bem como pelas novas áreas de incursão abertas por projetos de infraestrutura como estradas e represas. Cerca de 80% das áreas desmatadas tornam-se pastos, de acordo com as autoridades ambientais. Embora o desmatamento no Brasil continue muito menor do que no pico registrado em 2004, quando uma área maior do que a Macedônia foi dizimada, a área atingida vem aumentando de 2012 para cá”, diz o texto.

 

Também nesta reportagem escrita por estrangeiros é descrita uma cena de violência na “fronteira sem lei”. Garimpeiros ilegais queimaram, em outubro do ano passado, o escritório local do Ibama em retaliação à destruição dos botes que usavam para dragar os rios da região em busca de ouro. A floresta Amazônica, que tem tudo para ser um dos maiores orgulhos do território brasileiro, torna-se às vezes frágil, às vezes perigosa, diante do olhar certeiro de quem acompanha as notícias sobre o meio ambiente.

 

“ Agora, por causa das incertezas políticas depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e com o Brasil diante de suas eleições mais imprevisíveis em décadas, a floresta amazônica se torna ainda mais vulnerável. Críticos sustentam que as incertezas fortaleceram elementos conservadores no Congresso, em particular os ruralistas - políticos que representam os interesses dos produtores rurais em tempos nos quais o desejo insaciável da China por comida torna o Brasil uma potência agrícola cada vez mais forte. Isso quer dizer que a eleição geral de outubro não é importante apenas para o futuro do Brasil, mas também para o da maior floresta tropical do mundo, um dos principais baluartes contra as mudanças climáticas na Terra, de acordo com os ativistas”, escrevem os repórteres.

 

A sensação é de que os atores responsáveis pelo cenário de terra desprotegida e sem normas estão se aproveitando do momento também sensível pelo qual o país está passando. Carlos Nobre, cientista especializado em mudanças climáticas, foi ouvido pelos repórteres do FT, e diz, claramente, que não há motivo para crer que em três anos o Brasil vai conseguir reduzir o desflorestamento de algo entre mais de 6 mil e 8 mil quilômetros quadrados para 3,9 mil quilômetros quadrados.  

 

“O  desafio vai ser ainda maior para 2030, a menos que haja uma clara mudança na política ambiental, e isso só vai ficar claro quando soubermos quem vai ser eleito em 2018”, acrescenta ele.

Os desmandos na Amazônia estão, de fato, preocupando os estrangeiros. Em outro site jornalístico, “The Globe and Mail Inc”, repórteres contam a história da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém e que, segundo o texto, “corta um caminho pelo próprio país e  através das ambições conflitantes do Brasil: transformar-se em uma economia do primeiro mundo, por um lado, e por outro, para proteger e preservar o que resta de um ecossistema que recicla um quinto da precipitação mundial, detém 150 milhões de toneladas de carbono armazenado e abriga 15 por cento de todas as espécies na Terra”.

 

Vale a pena conferir o que pensam os profissionais estrangeiros sobre a atual situação da Amazônia e o que eles conseguem apurar, com recursos que lhes permitem viajar pela região. E não custa lembrar que esta luta, entre os preservadores e os dilapidadores da Amazônia brasileira, não é de hoje que está ocupando também os nossos temores mais profundos. Acabo de receber, por mensagem, um simpático convite para a missa em ação de graças a Dom Pedro Casaldáliga, que fará 90 anos este ano.  Nomeado bispo prelado de São Felix do Araguaia, Dom Pedro teve que se exilar em 2012 por conta das ameaças de morte que sofreu por defender o povo Xavante das agressões feitas por pessoas que queriam suas terras.

 

E vida que segue, num país considerado, em pesquisa realizada  pela instituição Global Witness, como o mais perigoso do mundo para defensores ambientais.


Fonte: g1.com

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