19 de setembro de 2017 às 05h40m
Mudança Climática: “não temos alternativa se não nos adaptarmos”

O Estado Verde teve a oportunidade de entrevistar o doutor Carlos Borrego, professor catedrático e diretor do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, Portugal

Ele participou do XIX Encontro da Rede de Estudos Ambientais em Países de Língua Portuguesa (REALP) que aconteceu de 12 a 15 de setembro, no Centro de Ciências, no Campus do Pici, da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza.

O evento reuniu representantes de instituições de ensino superior do Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Angola e Portugal e pela primeira vez aconteceu no Ceará. Daí, a oportunidade de conversar com o brilhante dr. Burrego, ex-ministro do Ambiente e Recursos Naturais de Portugal , diretor do Conselho Deliberativo do Departamento de Ambiente e Ordenamento e, também, diretor da European Association for the Science of Air Pollution (Eurasap) .
O centro da nossa conversa a Mudança Climáticas, falamos também de comportamento, de economia e até de incineração de resíduos. Segundo o catedrático, nenhum país escapa dos efeitos e impactos das alterações do clima e cabe ao homem, através da mudança de comportamento, mudar essa nova realidade mundial. Confira!

O Estado Verde: Qual a situação dos países de língua portuguesa em relação à Mudança Climática?
Carlos Borrego: A questão importante é que todos os países de língua portuguesa estão localizados em continentes que vão ser afetados, aliás, que já estão afetados. Portugal está na Europa e a Europa já está com problemas como a América do Norte, América do Sul, África – o continente que sofre o maior impacto – e zonas da Ásia onde está o Timor-Leste.

Em 1992, no Rio de Janeiro durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio 92) quando assinamos, eu digo, assinamos, porque naquele momento eu estava no governo português na função de Ministro do Ambiente, e Portugal tinha a presidência da União Europeia (UE), fomos ao Rio de Janeiro presidindo a delegação da UE. Foi ali que assinamos a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, também conhecida como UNFCCC e quando já se previam todos estes problemas do aumento dos efeitos extremos.

O problema não é muita chuva, não é muito vento, o problema são os extremos: ventos muito fortes, chuvas muito fortes, calor e frio muito acentuados. A grande diferença é que os fenômenos que antigamente aconteciam de forma esporádica, agora, acontecem com muita frequência, ao ponto de termos tido quatro furacões ao mesmo tempo, como aconteceu, recentemente, no Golfo do México.

Na altura em que o Irma entrava nos Estado Unidos, em Cuba e etc., haviam mais três outros em volta. Portanto, esta situação, eu diria, ninguém escapa dela, ou seja, quero dizer que os países de língua portuguesa não vão escapar, também.

OeV: O senhor pode exemplificar?
CB: Alguns estão vivendo situações mais problemáticas como aqueles que com grande litoral voltado para o Atlântico, como por exemplo, Angola, Brasil, Portugal, Cabo Verde. O Oceano Atlântico é uma zona de grande instabilidade climática, instabilidade esta que só aumenta.
Os eventos naturais, normais continuam, ninguém diz que o que está acontecendo é só culpa da atividade humana, por trás disso também está à atividade natural que acontece há milhões de ano na Terra. O que nós estamos fazendo é acelerar o processo. A atividade humana está fazendo com que esse processo que era absolutamente natural esteja acelerando e criando situações de frequência cada vez mais e maior.
OeV: Como nos adaptarmos a essa nova situação. E como deve ser esta adaptação em relação à questão econômica? Essa briga é grande: ambientalistas e economistas.

CB: Neste momento, já é provado que não temos alternativa se não nos adaptarmos. As situações de risco criadas pelas alterações climáticas já estão presentes, tanto é que vamos ter de nos adaptarmos. Não podemos esquecer que temos que mitigar também. Ou seja, reduzir todas as nossas emissões que nós fazemos e conseguir ir melhorando as nossas atividades, reduzindo as nossas emissões em todas as esferas. Sejam nas questões pertinentes à água, aos resíduos, etc.

OeV: O caminho para esta redução está na tecnologia? É o caminho para a mitigação?
CB: Não! Esse é o problema. Não será possível mitigar e adaptar–se a essa nova realidade, somente através da tecnologia. Aliás, se olharmos por exemplo, para o problema da poluição atmosférica, há cerca de 50 anos que investimos muito dinheiro e não conseguimos resolver o problema.
Na Europa, então, gastou-se bilhões de euros. E em que investimos? Em tecnologia! Os automóveis melhoraram, a indústria também e com tecnologia, mas esquecemos da coisa mais importante, nós, os seres humanos. Se as pessoas não quiserem participar neste processo, não como reduzir as emissões.

OeV: A grande responsável pela mudança é o ser humano, então?
CB: Nós somos os principais responsáveis, cada um de nós, individualmente, de tudo que está acontecendo, por que a tecnologia, como já se viu, não resolve tudo. Conseguiu encontrar soluções, mas enquanto os seres que habitam este Planeta não se convencerem de que eles é que são os motores da mudança e que não vai haver mudança, nenhuma, sem a participação deles. Esta é a nova mensagem!

De uns anos para cá, cada vez mais, é preciso envolver e conseguir fazer com que as pessoas, participem, cada vez, das soluções, sejam as de mitigação, sejam as de adaptação. E não é só para a questão climática é para todo o processo ambiental.
As pessoas têm que perceber que o comportamento de cada uma é mais importante do que a tecnologia. O carro pode ter o melhor motor, mas se a pessoa não for capaz de abrir mão do carro em troca da bicicleta, as emissões vão continuar. Esta é grande mudança que tem de acontecer!

OeV: Nesse momento a mudança de comportamento da sociedade parece difícil. Vejamos o exemplo do presidente dos Estados Unidos que nega o aquecimento global. Como influenciar essa mudança de atitude?
CB: Isto é componente econômico. Aí está boa parte do problema, as pessoas ainda não mudam por causa desse componente. Preferem pagar menos por um produto que necessitem para alimentação, do que pagar um pouco mais caro por um produto orgânico ou um de produção local, que não venha da China. E esta é a mudança que tem que se perceber, portanto, a economia também tem que se adaptar a essa nova realidade.

As pessoas precisam perceber que, enquanto decisores, eles são mais importantes do que as decisões políticas. Só por isso que eu não estou tão preocupado com o presidente Donald Trump. Ele é um descisor político, mas se os cidadãos americanos entenderem que eles estão muito mais convencidos de que têm uma estratégia diferente, ele [Trump] não vai conseguir fazer nada. Essa é a minha esperança em relação a um país tão grande como os EUA.

OeV: E sobre o cumprimento da meta estipulada no Acordo de Paris?
CB: O Acordo de Paris ainda é uma a caixa de Pandora. Não se sabe ainda o que vai sair dali. Na realidade o que se fixou foi que em 2020 vamos fazer um novo acordo. Basicamente essa foi a grande estratégia. E outra que considero muito significativa foi a de que até 2050, acabemos com os combustíveis fósseis. Esta a mensagem clara do Acordo de Paris: “2050 já não vai mais haver combustíveis fósseis”.

OeV: Não vai haver mesmo ou isso é utopia?
CB: Não, não é utopia! Já estamos começando a ver e aí está um exemplo da vontade nossa, enquanto indivíduo. Um grande número de cidades já estão fazendo planejamentos, considerando ter apenas na zona central da cidade transportes como bicicletas e elétricos [sabendo nós que eletricidade tem outros problemas de geração] ou andar a pé. Para as cidades é fundamental que as regiões centrais não tenham transportes com motores a combustíveis fósseis, mas sim, motores que não produzam nenhuma emissão, como o elétrico e o hidrogênio, o que vai acontecer em Londres até 2030.
Tudo isso só para dizer que o Acordo de Paris deixa essa grande mensagem, preparemo-nos para acabar com os combustíveis fósseis na produção de energia e transformar tudo a partir de fontes energéticas renováveis, o que hoje já é possível, mas as opções políticas ainda não foram nesse sentido.

OeV: Teremos um período de transição?
CB: Sim! Não vamos conseguir mudar de repente. Isto vai ter que ser feito de uma maneira a não provocar convulsões na sociedade. Mudanças muito drásticas criam depois situações de grande conflito na sociedade. Portanto, isso tem que ser feito com muita calma.
Quero ressaltar que nós vamos precisar a continuar procurando petróleo , procurar combustíveis fósseis, para manter a transição. Agora, não há a mínima dúvida que devemos ter um planejamento, particularmente, forte, no sentido de observar que nos próximos cinco anos vamos reduzir tanto, nos outros cinco, mais tanto , para conseguir planejar uma maneira adequada esta mudança completa de paradigma em termo de produção de energia, que é para nós o ponto mais crítico em termos de sociedade atual.

OeV: Da Conferência de Estocolmo em 1972, até hoje avançamos?
CB: Sou um otimista. Ao longo dos meus 45 anos trabalhando na área de meio ambiente, vi muitas coisas. Há 45 anos, parecia que não íamos conseguir e conseguimos muito. Em 1972, na primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano (Conferência de Estocolmo) o que se discutiu e as coisas tratadas não se falava em desenvolvimento sustentável, e 20 anos depois quando estive na Rio 92 já falávamos em desenvolvimento sustentável , em alterações climáticas , etc. e etc. Portanto, considero que a sociedade tem feito progressos.

OeV: Com sustentabilidade?
CB: Os condicionamentos econômicos são fortes e, muitas vezes, amarram as soluções. Eu não sou contra a economia, mas exemplifico com dois dados: Em 1950 haviam 2.5 bilhões de habitantes no Planeta , em 2015 chegamos a 7,4 bilhões. O mundo cresceu três vezes em número de habitantes entre 1950 e 2015. Agora vou buscar o PIB mundial. Em 1950 eram US$5 trilhões, em 2015 , US$ 74 trilhões. A humanidade cresceu três vezes . Por quê? Nós não precisávamos crescer três vezes e a custa de quê? De recursos naturais.

Mas a palavra de ordem e de todos os políticos é o crescimento econômico, mas precisamos de desenvolvimento. Crescimento econômico é manter mesma renda , conseguir mais, fazer mais com aquela renda. Isto não é sustentável. A economia tem que mudar radicalmente, como por exemplo, criar outros indicadores. O Reino Unido está muito adiantado nesse processo.

Devemos buscar a melhoria da qualidade de vida e isso não será a custa do crescimento, seja ele econômico, seja ele utilizando bens. Temos que aproveitar os bens que temos agora e deixar de fazer uma coisa que os seres humanos vêm fazendo ao longo desses últimos 100 anos, principalmente, a partir dos séculos 18 e 19, que é comprar e jogar tudo fora, depois. Tudo vem a nossa mão e a seguir o destino é o lixo. Oitenta e oito bilhões de toneladas de lixo é o que jogamos fora todo o ano em todo o mundo. Enquanto isso, um bilhão de pessoas passam fome, diariamente no mundo.

OeV: Sair da economia linear e adotar a circular?
CB: Isso. Fazer com que o sistema se mantenha a funcionar e aquilo que era desperdício de um lado, passe a ser matéria-prima do outro. Isto é fundamental e é absolutamente indispensável.
Já temos alguns exemplos, os resíduos são uns dos primeiros, o que hoje em dia se chama de Simbiose Industrial ou seja, o que é resíduo em uma indústria, na outra é matéria-prima. O que sai de uma indústria entra na outra. Temos exemplos em Portugal. É a lógica do resíduo zero e aí está a economia a funcionar. E só quem pode mudar isso? As pessoas!

OeV: Agora que falamos em lixo, pergunto: é viável para uma cidade como Fortaleza, construir uma usina para incineração de resíduos? Essa deve ser a boa solução ou a última solução?
CB: A primeira solução é evitar o desperdício. Portanto, criar produtos que de fato, embasados na economia circular, entrem no mercado e não sejam jogados fora, uma coisa que se deixou de fazer. A tecnologia alimenta o desperdício. Não é mera solução queimar lixo, é uma das soluções, assim como depositar lixo no aterro, e o que deve ser diminuído.

É compreensível que numa situação de transição possa fazer sentido numa cidade como Fortaleza, com 2.5 milhões da habitantes e com crescimento muito acelerado e que tenha que encontrar uma destas soluções de forma intermediária. Não conheço profundamente a realidade local, mas é preciso que se façam estudos. Não sei se já existem. É preciso avaliar os tipos de resíduos que a Cidade vai produzir e quais as estratégias para reduzir.


Fonte: O Estado

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