02 de junho de 2017 às 08h15m
EUA se juntarão a Síria e Nicarágua no 'clube' dos países fora do Acordo de Paris

Presidente Trump anunciou saída americana do tratado de mudanças climáticas nesta quinta. Acordo segue abrangendo outros 194 países signatários. Veja possíveis consequências da medida americana.

Com o anúncio de retirada do Acordo de Paris, realizada pelo presidente norte-americano Donald Trump nesta quinta-feira (1º), os Estados Unidos se tornaram membros do seleto clube dos países que não assumiram um compromisso internacional comum na luta contra as mudanças climáticas. Um clube composto por apenas três membros: Síria, Nicarágua e, agora, Estados Unidos.

O restante dos 194 países do mundo (incluindo nações como Coreia do Norte e Somália), assinaram esse tratado internacional que prevê até 2030 a limitação do aumento das temperaturas mundiais em um nível mais próximo possível de 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais. Até os países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), maiores interessados em preservar o uso global dos combustíveis fósseis, assinaram o acordo. Mas, para o presidente Trump, esse tratado era “injusto” com os Estados Unidos e com seus trabalhadores.

Sem os EUA, que são o segundo maior produtor de gases de efeito estufa, o Acordo de Paris perde grande parte de seu sentido político e prático. Atualmente, o mundo superou 1ºC de aumento das temperaturas, ou seja, sobrou apenas 0,5º para os próximos 13 anos.

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Os cientistas da ONG Climate Interactive realizaram uma simulação digital sobre o que ocorreria se todos os 194 Países do mundo que assinaram o acordo chegassem aos objetivos previstos pelo tratado sobre a redução das emissões de CO2 até 2030, e somente os EUA não: seriam despejados na atmosfera terrestre mais de 3 bilhões de toneladas de dióxido de carbono a mais a cada ano, com um aumento das temperaturas até o final do século que ainda não pode ser calculado com margem razoável de certeza.

 

Assinando o Acordo de Paris, os Estados Unidos tinham se comprometido a reduzir suas emissões de gases clima em 26-28% até 2025. Entretanto, desde sua posse, Trump não somente declarou guerra a essa restrição como já eliminou leis introduzidas por Barack Obama para alcançar esse objetivo, além de ter reduzido financiamentos e prerrogativas da Agência de Proteção do Meio Ambiente dos EUA (EPA), o órgão público que garante a medição das emissões produzidas no país.

Energia 'tradicional'

Sob o aspecto econômico, com a decisão de retirar os EUA do Acordo de Paris, Trump está visando favorecer as empresas energéticas “tradicionais”, ou seja as grandes companhias que operam nos setores de petróleo, carvão e gás natural, consideradas pelo presidente norte-americano como “recursos nacionais”.

Contudo, até 2030, o mercado das energias renováveis terá um valor de cerca de US$ 6 trilhões (cerca de R$ 19 trilhões), representando uma contribuição fundamental na produção do PIB dos EUA. Sem o apoio do governo federal, as empresas americanas poderiam perder terreno na pesquisa e desenvolvimento, e também cotas de mercado em relação aos concorrentes internacionais.

Pittsburgh

A China, por exemplo, já está planejando investir cerca de US$ 360 bilhões (cerca de R$ 1,1 trilhão) no setor, criando 13 milhões de novos empregos. “Eu fui eleito pelos cidadãos de Pittsburgh, não de Paris”, declarou o presidente norte-americano em seu discurso com o qual anunciou a retirada dos EUA. Só que pensando aos trabalhadores do setor do carvão, Trump poderia estar condenando os trabalhadores do setor das energias renováveis, já que sua decisão poderia colocar as empresas chinesas do setor das energias limpas em frente ás americanas.

Além do mais, outros países que assinaram o acordo poderiam penalizar as empresas norte-americanas como forma de retaliação, por exemplo reduzindo os impostos alfandegários de outros países produtores de infraestruturas energéticas renováveis e aumentando os impostos sobre os produtos americanos, provocando uma catástrofe comercial para a indústria verde dos EUA.

Washington se isola ainda mais do mundo, sendo que os únicos outros dois países do planeta que se recusaram a assinar o acordo foram a Síria (por causa da guerra civil em andamento que impede qualquer ação diplomática mais elaborada) e a Nicarágua (como forma de protesto pessoal do presidente Daniel Ortega, que pretende que os países ricos paguem mais aos pobres pelas mudanças climáticas).

Camada de poluição sobre a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. Crescimento econômico impulsionou emissões de gases causadores do efeito estufa. (Foto: Gabriel Bouys/AFP) Camada de poluição sobre a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. Crescimento econômico impulsionou emissões de gases causadores do efeito estufa. (Foto: Gabriel Bouys/AFP)

Camada de poluição sobre a cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. Crescimento econômico impulsionou emissões de gases causadores do efeito estufa. (Foto: Gabriel Bouys/AFP)

Parceiros europeus

Do outro lado, a esmagadora maioria dos países do mundo consideram há tempo as mudanças climáticas como uma verdade inegável, e acreditam que alguma ação sobre o clima seja algo urgentemente necessário. Em primeiro lugar, os países membros da União Europeia, parceiros históricos dos norte-americanos.

Por isso, com essa decisão, os EUA arriscam se alienar de aliados em uma temática considerada como fundamental. Mas a retirada do Acordo de Paris poderia ainda provocar um efeito cascata, em particular em países que o assinaram sem muita convicção, e que poderiam ser tentados a imitar Washington.

A questão se torna também jurídica. Os EUA ratificaram o acordo através de uma “ordem executiva” do ex-presidente Barack Obama, revogada por Trump. Segundo as regras do próprio tratado, os americanos deverão esperar três anos antes da retirada definitiva. Bastante tempo na curta dimensão de um mandato presidencial. Por isso a Casa Branca poderia escolher uma estrada mais curta, e mais drástica: abandonar diretamente o Tratado da ONU na qual o Acordo de Paris se funda: a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima.

Algo que limitaria o tempo de três para um ano. Ou, se quiserem um efeito imediato, os EUA poderiam simplesmente ignorar as regras e parar de respeitá-las. Uma perspectiva inquietante sob o perfil do direito internacional, que poderia ser um precedente perigoso para outros países no futuro.

Arte - Mudança climática (Foto: G1 ) Arte - Mudança climática (Foto: G1 )

Arte - Mudança climática (Foto: G1 )


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