21 de março de 2017 às 06h55m
Águas residuais: solução, tabus e exemplos que permeiam o tema

um tabu ou até mesmo uma barreira cultural; para outros, seria a solução ideal e conveniente para que municípios e estados brasileiros possam enfrentar os implacáveis problemas hídricos recorrentes das poucas chuvas e da poluição, atribulações essas que são acentuadas em toda a região Nordeste.

Mas você aí já ouviu falar ou sabe o que significa águas residuais? Se não sabe, nós iremos esmiuçar tudo sobre isso, agora.


O assunto não está em evidência por um mero acaso. Longe disso. Todos os anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) escolhe um mote para pautar a celebração do dia 22 de março e o tema da campanha para 2017 é justamente “Por que águas residuais?”. Para deixar claro do que se trata, vamos detalhar o assunto.

O que seria?


Águas residuais nada mais são do que águas que vão para o esgoto, águas que são provenientes das residências, das indústrias, e afins. É o conteúdo que, após o uso e/ou interferência humana, apresenta alterações em suas características naturais. Trocando em miúdos, é a água que escoa da sua casa após o banho, uso do sanitário, a lavagem de roupa e louça, e por aí vai. Essa água, dependendo do grau de poluentes, pode fazer muito mal ao meio ambiente e, consequentemente, causar problemas relacionados à saúde.


Ou você acha que essa “água suja” simplesmente some do mapa? Não, ela precisa ir pra algum lugar, ou melhor, precisa ser cuidada antes de ir para algum lugar. E é aí onde entra o grande “x” da questão: você faria uso normalmente desse recurso hídrico mesmo sabendo que, apesar de devidamente tratado, é proveniente do esgoto?

A importância


Para saber como funciona o tratamento dessa água residual, buscamos conversar com quem mais entende do assunto no Estado: a Companhia de Água e Esgoto do Ceará, a popular Cagece, e Ronner Gondim, superintendente de sustentabilidade do órgão, falou conosco sobre o processo. “Temos uma mescla dos tipos de esgoto, que chamamos de “esgoto sanitário”. Esse esgoto é trabalhado nas nossas Estações de Tratamento de Águas Residuais (Etar), que possuem tecnologia para fazer toda essa separação. Após tratada, essa água é devolvida adequadamente aos rios, água devidamente limpa, atendendo a todas as exigências possíveis”, detalha Ronner.


Sobre a reutilização dessa água, o superintendente esclarece que há interesse. “É uma vontade nossa reaproveitar esse conteúdo para o reuso industrial, agrícola, nossas áreas de pesquisa estão trabalhando nesse desenvolvimento”.

E o reuso direto para consumo humano? É possível? Ronner explica. “Há tecnologia suficiente para isso, para dar à água 100% de pureza, mas esbarra no aspecto cultural. Lá fora já se discute isso, porque se pararmos para analisar, esse recurso hídrico já é usado de maneira indireta, já que a água tratada do esgoto vai para o rio e lá na frente será novamente direcionada. Pra ser sincero, ela é mais limpa se consumida diretamente do que se misturando ao rio, acredite”, diz.


Deixamos claro na passagem anterior que reuso da água residual é para tarefas que não envolvam o consumo humano – pelo menos ainda – e há quem já esteja reutilizando a “água suja” para inúmeras atividades dentro da empresa, dando um excelente exemplo de sustentabilidade e preocupação com os problemas hídricos da nossa região. Começamos com a Companhia de Bebidas das Américas, conhecida por Ambev.

Ótimos exemplos


Há mais de 20 anos, a Ambev trabalha para preservar a água e diminuir o índice de consumo em suas cervejarias e, para isso, conta com um time de técnicos, gestores e especialistas. Internamente, a cervejaria já reduziu, nos últimos 14 anos, em 44% de consumo no processo produtivo e hoje é a cervejaria global mais eficiente no consumo de água do mundo, fazendo uso de procedimentos simples e eficazes como o reuso da água utilizada na limpeza.


Após a lavagem de garrafas, por exemplo, a Ambev reutiliza a água para higienizar caixas, mas é bom deixar claro que a água que compõe as cervejas, a chamada “água nobre”, não passa por qualquer processo de reutilização. A água de reuso é a “água de serviço”, usada para limpeza. Depois de ser reutilizada e reaproveitada ao máximo, a água retorna à natureza.

Especificamente no Ceará, a Ambev, em Aquiraz, trata 100% de seus efluentes e direciona cerca de 60% para a Cerâmica Tavares. A olaria, por sua vez, deixa de captar água limpa da natureza, já que o recurso tratado pela cervejaria supre 100% do volume necessário para a produção da empresa, que fica na região de Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza.


“Reduzir o consumo de água em nossas cervejarias está entre as prioridades da Ambev, a preservação do recurso hídrico é nossa grande causa ambiental. Por isso, investimos em projetos que garantam um ciclo mais sustentável para o meio ambiente e, consequentemente, para o nosso negócio”, afirma Stephanie Landim, gerente de meio ambiente da cervejaria de Aquiraz.

RioMar fazendo sua parte


Chancelado com a Certificação Aqua (Alta Qualidade Ambiental), sendo o primeiro empreendimento desse segmento no Estado e o segundo no Nordeste, o Shopping RioMar adota a linha sustentável e ainda economiza com isso. “Em um período de crise hídrica, que desponta como a maior estiagem dos últimos 80 anos no Nordeste, o desenvolvimento de empreendimentos que atuam de forma racional a partir do uso de tecnologias e gestão da água permite a viabilidade e sustentabilidade. Esta postura com o compromisso socioambiental atende aos anseios da sociedade, das instituições gestoras da água e diminui o impacto local”, garante Sérgio Maffioletti, gerente de desenvolvimento socioambiental do Grupo JCPM.


Pegando como exemplo o mais novo empreendimento do grupo, o RioMar Kennedy, a redução do consumo geral de água potável é de 50,75% e de 35,5% de energia, ou seja, uma economia bastante considerável se comparada a outros do mesmo segmento. Já no RioMar Fortaleza, os números giram em torno de 59% e de 34,62%. Mas como a empresa consegue alcançar esses índices?


Os fatores são muitos, mas um dos principais é o sistema de refrigeração, que recolhe e reutiliza a água resultante da desumidificação do ar e consequente condensação do ar nas torres de refrigeração, com economia prevista de 39,5% no ano. O reuso da água de condensação gera uma economia em litros no ano em torno de 49.692 m³, equivalente ao consumo anual de 347.496 habitantes de Fortaleza.


Mudando conceitos


São de atitudes assim que o planeta precisa. Quanto ao tabu de consumir água reutilizada, é algo que deverá mudar pouco a pouco, com comprovações de que esse recurso é válido e totalmente de acordo com a pureza necessária para tal prática. É uma barreira cultural apenas. A solução é interessante, já está sendo usada para outros fins e é o próximo passo para se economizar água, que já anda tão escassa por essas bandas.

 

MRV Engenharia também segue a
linha sustentável do reuso


A MRV Engenharia implantou em de seus canteiros de obras sistemas para reaproveitamento e coleta da água. Somente no ano de 2016, a construtora economizou mais de 73 mil m³ de água com a reutilização, o equivalente ao volume de 29 piscinas olímpicas. O reuso de água nos canteiros ainda representou uma economia de R$ 268 mil para a companhia. O reaproveitamento nos canteiros acontece em diversas frentes, em uma delas a água pluvial é coletada por meio de pontos de drenagem que deságuam em reservatórios para armazenamento e que, posteriormente, é destinada ao uso em sanitários.
A água usada na lavagem da área da betoneira – equipamento para misturar materiais da construção civil – é também reutilizada após passar por um processo de decantação. O recurso que anteriormente era descartado, agora é desviado para três tanques, o primeiro com a função de decantação dos sólidos maiores, o segundo decanta os materiais menores e o terceiro armazena a água.
“Esse sistema permite economizarmos a água que antes não tinha uso. Mesmo após a recuperação dos reservatórios após a crise hídrica, a MRV tem se empenhado para reduzir a utilização, eliminar o desperdício e reaproveitar ao máximo esse recurso tão fundamental”, afirma José Luiz da Fonseca, gestor executivo de segurança, saúde e meio ambiente da companhia.


Fonte: O Estado

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