24 de janeiro de 2017 às 12h30m
Inverno no Ceará: neutralidade de chuvas, poucas esperanças

A lágrima que escorre pelo rosto do sertanejo que olha incrédulo para o céu anil sem nuvens tem um peso de inúmeras gerações que sofrem com a falta d´água, com as chuvas cada vez mais rareadas por essas bandas.

A seca vista pela janela, presenciada há décadas, há vidas, o sol que parece mais castigante do que em outras partes, a terra escassa, amarronzada, que proíbe as plantações de florescerem, que comporta as carcaças esquecidas do gado que não sobreviveu pela sede, que carece de água.

“Será que as orações não estão surtindo mais efeito? Será que Deus se esqueceu do povo cearense? Por que Jesus Cristo não acaba logo com esse sofrimento de uma vez ao invés de nos fazer sofrer por tanto tempo?”, agruras e lamentos – compreensíveis até – de quem protagoniza essa amargurada história. Francisco Nonato de Medeiros, ou apenas Chico Nonato, é um desses personagens.
Seu Chico é natural de Apodi, cidade do oeste potiguar, situada na microrregião da Chapada que leva o nome do município, mas mora há 32 anos em Quixeré, que fica no Baixo Jaguaribe e há 218 quilômetros de Fortaleza, quase divisa com o Rio Grande do Norte. Agricultor e criador de algumas poucas vacas, seu Chico deixa transparecer um olhar desesperançoso, entristecido, quando se fala em inverno. “Precisa chover, tem gente como eu que não tem de onde tirar o sustento, meus animais estão morrendo, choro ao ver as vaquinhas magras, as plantas murchas, secas. É a realidade daqui, meu filho”, desabafa.

Neutralidade
A preocupação do pobre homem do campo tem fundamento e explicação. A famigerada ‘La Niña’ alimentou a esperança de chuvas em demasia para a região Nordeste como um todo, rios cheios, açudes transbordando, cacimbas abastecidas, terras encharcadas, o verde recolorindo o sertão. Era a esperança. Mas, a realidade tende a não ser tão bem assim. Na última semana, a Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), órgão vinculado à Secretaria de Recursos Hídricos (SRH), noticiou sua projeção para a quadra chuvosa para fevereiro, março e abril de 2017. Nada muito animador.
Segundo divulgado oficialmente pela entidade no Palácio da Abolição, e desvendando um cenário que inspira sérios cuidados e uma necessidade na continuidade das ações de segurança hídrica, a palavra usada para avaliar o prognóstico foi neutralidade. A justificativa é simples: as chuvas – no caso as probabilidades – devem ficar dentro da média história, que é de 40%, o que seria um ponto positivo, já que são cinco anos de seca extrema e invernos muito abaixo do esperado.

Fraca(sso)
O ponto negativo nisso tudo é que La Niña, citada como sendo a grande fonte da expectativa positiva por parte do nordestino no início do texto, enfraqueceu consideravelmente e, consequentemente, as águas, que precisavam estar resfriadas para possivelmente resultar em precipitações no Ceará e no restante da região, estão em um estado de neutralidade (olha o termo aparecendo mais uma vez), ou seja, não devem causar grande interferência na quadra chuvosa estadual. Por isso, o olhar choroso de seu Chico faz sentido.

Para quem não sabe o que significa La Niña, nós explicamos. La Niña seria um fenômeno contrário, inverso ao El Niño. Se a derivação masculina foi dos motivadores de anos de escassez e precipitações minguadas, a outra consiste na diminuição da temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico Tropical Central e Oriental. A ocorrência de ambos gera uma série de mudanças significativas nos padrões de precipitação e temperatura não só no Nordeste ou no Brasil, mas em todo o planeta.
Enquanto isso, seu Chico Nonato – que não sabe o que é La Niña, muito menos onde fica o Oceano Pacífico – não acredita, devido aos caprichos da crença místico-popular e da religiosidade, que o inverno é promissor. “Não tem cigarra cantando, essas chuvas de janeiro não me enganam, é outro ano de seca, a não ser que São José nos ajude, só ele pode mudar isso, se ele quiser tem água, mas eu não estou confiando muito não”, lamenta.

Agronegócio: expectativa de chuvas “isoladas”
“O agronegócio depende exclusivamente da água, então é preocupante a atual situação, perdemos muitos negócios para estados vizinhos, como Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí e Bahia, dentre outros. A fruticultura, a bovinocultura, tudo depende de água da irrigação, então a situação fica bastante comprometida para o ano de 2017 sem dúvidas”, palavras de Erildo Pontes, coordenador técnico da Frutal.
Segundo Erildo, o prognóstico divulgado pela Funceme passa uma ideia, mesmo que superficial, da situação do estado para os próximos meses e que é preciso se organizar para não deixar que a falta de chuvas prejudique ainda mais. Porém, o coordenador explicou ainda que mesmo a projeção sendo de chuvas dentro da média histórica no Ceará, a expectativa ainda pode ser positiva para a quadra chuvosa.

“As chuvas grandes e de certa forma isoladas podem favorecer a quem precisa de água. Precipitações com grande quantidade de milímetros, como 100, por exemplo, podem cair na bacia dos reservatórios e aí eleva sua quantidade atual. Isso é importantíssimo. Chuvas estratégicas podem contribuir muito mesmo com um inverno abaixo do esperado, assim teríamos água estocada e irrigação seria preservada, ainda mais que no segundo semestre usamos ainda mais os recursos hídricos. A expectativa é de que essas grandes chuvas possam aparecer, como foi em outros anos”, salienta.
O panorama atual do agronegócio, no entanto, conta com o sinal de alerta já ligado. “Como falei, perdemos vários de nossas grandes empresas para estados vizinhos. Ainda sobrevivem produções na Chapada do Apodi, por conta dos poços, usando a água subterrânea, no Cariri também tem alguma coisa escapando também através de poços, mas a verdade é que o setor precisa de muito mais para que volte a prosperar. Mas como falei, temos esperanças de chuvas grandes e pontuais possam mudar essa realidade, as coisas podem ser melhores apesar dos prognósticos”, completa.

Fortaleza e RMF avançam na redução do consumo de água

Consumidores de Fortaleza e Região Metropolitana (RMF) têm conseguido avançar na redução do consumo de água. Dados da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) registraram em dezembro de 2016 uma redução de 8,8% do volume médio de água consumida. O percentual representa um total de 1,06 milhão de metros cúbicos a menos que a média utilizada para cálculo da tarifa de contingência. Desde a implantação do mecanismo, o mês de dezembro de 2016 obteve maior percentual de redução registrado pela Cagece.

Apesar de não ter atingido a meta de 20% de redução, prevista para aplicação da tarifa de contingência, a população tem demonstrado comportamento mais consciente uma vez que, quando observado o consumo individual, por ligação de água, o mês de dezembro registrou o menor consumo dos últimos 36 meses.
Quando comparado com novembro de 2016, cerca de 32 mil clientes deixaram de pagar tarifa de contingência por terem conseguido consumir dentro da meta estabelecida. Em dezembro, o mecanismo foi aplicado a aproximadamente 244 mil consumidores de Fortaleza e RMF.
No acumulado do ano de 2016 (janeiro a dezembro), a economia foi de 7,9 milhões de metros cúbicos de água, quando comparado com o período base para cálculo da tarifa de contingência (outubro de 2014 a setembro de 2015). O total economizado no ano é equivalente ao volume de água consumido pelos clientes de Fortaleza em dezembro de 2016.


Fonte: O Estado

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